Busca

Poesias Periféricas

"Vozes da Periferia"

Bambuzal

O vento me trouxe uma lembrança boa agora,

De quando tudo era calmaria,

Mas nada era monótono,

O vento trouxe aquele cheiro de mato, sabe?

Aquele perfume de natureza, que você não define se é rude ou suave,

Trouxe aquele cheiro de vida, de erva, de verdura colhida,

Afastou todo cansaço e me trouxe aquela momentânea alegria.

.

Leveza, foi isso que o vento me trouxe,

Aquele despertar tranquilo, depois de uma boa noite de sono,

E essa brisa tem dono,

Esse vento foi um presente de minha mãe,

Porque ela é senhora dos ventos,

E não há de ver seu filho desesperançoso.

.

Esse vento trouxe aquele afago,

Aquele carinho gostoso,

E as memórias boas,

Coisa de mãe!

Acarinhou seu filho em uma quarta-feira,

Para mostrar que meu carinho e minhas lembranças são recompensados,

Me fez lembrar de uma felicidade simples.

.

Aqueceu meu coração com uma brisa fresca em meio ao sol,

O vento me cobriu como um fino lençol,

E me deu esperança!

E o que mais precisa uma criança,

Além de um abraço, um beijo de mãe e esperança?

.

.

.

Felipe Hudson

Tolerância?

Nenhuma religião é ruim,

Mas não faz mal não ter religião,

Complicado é o fanatismo que congela o coração,

Venda os olhos e causa cegueira,

Empobrece o espírito e separa irmãos.

.

Cristãos, espíritas e umbandistas,

Candomblecistas, muçulmanos e budistas,

Nenhum credo traz em si a divisão,

O egoísmo, a ganância e a ambição,

Propagam o desgosto e a contradição.

.

Existe religião ruim?

Ruim é ter religião?

Pior é ser ateu?

Não!

A intolerância, a violência e o fanatismo é o que está em questão!

.

A intolerância já está errada no propósito de algo tolerar,

Invocar a tolerância é algo pesado sobre um fato que não lhe cabe julgar,

Tolerância não veste bem em uma festa onde o melhor vestido seria a empatia,

Quem sabe combinada com o respeito,

Então poderíamos livres de opressão,

Encher nosso peito de ar e de amor nosso coração,

E soltar um suspiro de alívio e um abraço de compaixão,

Poderíamos conviver e então viver!

.

.

.

Felipe Hudson

Entre estações

Só a vi uma vez,

E nunca mais,

Acho que era minha alma gêmea,

Mas não é mais,

Nossos olhos se cruzaram no tempo de uma estação,

As portas se fecharam,

As do trem e do meu coração,

Um último olhar se seguiu até que não pude mais ver,

Meu futuro quase se fez,

E por um segundo não pode se fazer,

Foi apenas um olhar,

Foi a sorte que me sorriu, mas preferi estar com o azar,

Me mantive sozinha,

Me restou somente seu olhar.

.

.

.

Felipe Hudson

Notas e memórias

Um beijo apenas,

É o que eu te peço nessa noite fria,

Preciso preencher o vazio do meu peito,

Coroar de flores minha trilha,

Preciso de algo mais do que estar sozinho,

Preciso seguir de mãos dadas este caminho.

.

Aceita meu convite,

Vive comigo uma tarde de domingo,

Afasta a melancolia do final do dia,

Faz da minha noite algo realmente fantástico,

Não permita que eu seja abraçado pelo sarcasmo,

Não me permita apenas esperar a segunda-feira,

Ver a vida passar por inteira.

.

Olha nos meus olhos com aquele brilho,

Deixe que minha sorte esteja nas suas mãos,

Que nossas linhas da vida se cruzem,

Que possamos driblar a morte,

Ou que morramos abraçados,

Mas que nossos corpos se completem.

.

Não sejamos notas e memórias,

Que nossa história seja completa em um dia,

Uma seresta,

Livra-me da sociedade funesta,

Venha comigo e proteste!

Não aceitemos o deserto de ódio,

Nem o silêncio entre os prédios.

.

.

.

Felipe Hudson

Olhos areados

O dinheiro escorria pelas mãos como areia,

Quando se pega um punhado nas dunas e o deixa correr entre os dedos,

Os grãos se juntam novamente ao monte,

Parece vã a decisão de tentar separá-los,

Como o povo, a areia é bela quando está unida,

Quando compõe a paisagem,

Ou quando se junta formando a massa que estrutura as casas.

.

Um único grão de areia perdido,

Onde quer que esteja,

Em um chinelo novo ou velho,

Em um copo prestes a receber cerveja,

Não tem serventia, não tem beleza,

Trata-se apenas de um incômodo,

Como o grão de areia que lhe afeta os olhos,

Que não traz nada de positivo, somente lhe agride.

.

Assim é o indivíduo isolado,

Que não vive em sociedade,

Ou se quer consegue abrir mão de sua individualidade em prol do bem geral,

Assim como o mísero grão de areia ele não tem serventia,

Não completa a paisagem,

Nem constrói qualquer sustentação,

Nasce, vive e morre como um grão que não germina,

Que não participa de algo maior,

Como um simples e isolado grão de areia,

Incomodando os olhos areados.

.

.

.

Felipe Hudson

Garrafas jogadas ao mar

Nunca pensei se teria talento,

Apenas escrevo,

Espalho minhas palavras ao vento,

Espero que um dia as encontrem,

E no mesmo pacote estarão meus sentimentos.

Jogo minhas poesias no ar,

Como garrafas jogadas ao mar,

Com mensagens que alguém um dia poderia encontrar,

Que talvez façam sentido para quem as lê,

Ou sejam deixadas em um canto qualquer,

Espero apenas que não naufraguem,

Mas não lhes determino o destino.

Lanço minhas palavras assim como elas me chegam,

Ligeiras, rasteiras e sufocantes,

As lanço porque não consigo mantê-las em minhas gavetas ou estantes,

Preciso compartilhá-las com o mundo,

Embora meu mundo não seja ninguém,

Ou exista gente demais que não cabe no meu coração.

Preciso apenas escrever corrido,

Sem pensar e nem sufocar sentimentos,

Preciso aproveitar o momento,

Lançar minhas garrafas ao mar e torcer para que as ondas sejam grandes,

Que as garrafas sejam fortes,

Mas que se abram com facilidade diante de um bom coração!

.

.

.

Felipe Hudson

Raízes do Brasil

Folhas e velas,

Farinhas e carnes,

Óleos e rezas,

Fé e harmonia,

Tambores e magia,

Aromas e temperos,

Cumbucas e terreiros,

Raízes do Brasil!

.

.

.

Felipe Hudson

Olhares

Quando os olhares se cruzavam,

E por um segundo conseguíamos contemplar nossas almas,

Quando havia calma,

Para sentado em um bar destrinchar nossos carmas,

Em goles de cerveja gelada,

Abraços alcoólicos e choros melancólicos,

Regados a promessas eternas de amizade,

Quando havia menos vaidade,

E vagávamos perdidos pela cidade,

Quando não éramos tão distantes.

.

Antes dos seus olhares,

Antes dos celulares,

Quando as vidas nos importavam,

Quando ainda não importávamos,

Éramos todos mais humanos,

Éramos mais manos,

Éramos mais, mano!

.

E hoje, proclamo que era mais feliz nos braços de Tieta!

Quando meu sonho era ter uma mobilete ou uma motoneta,

Minhas atividades eram programadas pela força do sol ou pelo tempo da chuva,

Quando não me importava tanto com a qualidade das calças e blusas,

Quando apenas vivia!

E o coração dilacerava quando um pequeno amor partia,

Uma simples paixão nos movia e era possível atravessar a cidade por um beijo,

Era possível varar um país sem um ensejo,

Tudo isso foi antes.

.

Antes da nossa falta de olhares,

Antes dos celulares,

Quando as vidas nos importavam,

Quando ainda não importávamos,

Éramos todos mais humanos,

Éramos mais manos,

Éramos mais, mano!

.

Mas algo mudou,

Tudo mudou,

Máquinas, distância, olhares baixos,

Trocamos palavras por textos,

Curtos,

Sempre usando a falta tempo como pretexto,

Enquanto sofremos muito no pouco tempo que nos resta,

Nada é mais como antes…

.

Antes da nossa falta de olhares,

Antes dos celulares,

Quando as vidas nos importavam,

Quando ainda não importávamos,

Éramos todos mais humanos,

Éramos mais manos,

Éramos mais, mano!

.

.

.

Felipe Hudson

Corpos

Para um povo formado comercializando vidas,

O que importa comercializar em meio a morte?

Entregar o povo a própria sorte,

Permitir que convivam com a possibilidade de se contagiar com um vírus letal,

Lhes parece normal,

Como os corpos empilhados em quilombos ou navios negreiros durante o período colonial.

Não há nada de novo em um corpo pobre estendido no chão,

O importante são os comércios fervilhantes,

Como nas minas de diamantes,

Como esperar conscientização?

Construímos nossa história sobre tijolos de desigualdade,

Corpos foram feitos de degraus,

Cabeças enfeitaram postes,

Açoites eram praticados antes e após as missas,

Como uma espécie de ritual,

Matar negros e pobres é uma premissa,

Para uma espécie de ascensão social.

O que lhes causa indignação nesta pandemia?

A indiferença em relação as vidas periféricas para “salvar” a economia?

Ou empregados domésticos em ônibus apertados para que os patrões passem seus dias deitados?

Te espanta o número de contaminados?

Ou um governo desumanizado, interessado nos próximos financiamentos de campanha,

Criando cargos para serem trocados?

A mim não indigna nada!

Somos apenas a continuação de uma “estória” mal contada,

Seguimos pela mesma estrada,

Um tapete de corpos, como os enfeitados no “corpus christi”,

Ladrilhada por mentiras, hipocrisias e histórias mal contadas,

Inventadas!

Mas no país oficializadas e chamadas de “História do Brasil”.

.

.

.

Felipe Hudson

Blog no WordPress.com.

Acima ↑