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Poesias Periféricas

"Vozes da Periferia"

Olhares

Quando os olhares se cruzavam,

E por um segundo conseguíamos contemplar nossas almas,

Quando havia calma,

Para sentado em um bar destrinchar nossos carmas,

Em goles de cerveja gelada,

Abraços alcoólicos e choros melancólicos,

Regados a promessas eternas de amizade,

Quando havia menos vaidade,

E vagávamos perdidos pela cidade,

Quando não éramos tão distantes.

.

Antes dos seus olhares,

Antes dos celulares,

Quando as vidas nos importavam,

Quando ainda não importávamos,

Éramos todos mais humanos,

Éramos mais manos,

Éramos mais, mano!

.

E hoje, proclamo que era mais feliz nos braços de Tieta!

Quando meu sonho era ter uma mobilete ou uma motoneta,

Minhas atividades eram programadas pela força do sol ou pelo tempo da chuva,

Quando não me importava tanto com a qualidade das calças e blusas,

Quando apenas vivia!

E o coração dilacerava quando um pequeno amor partia,

Uma simples paixão nos movia e era possível atravessar a cidade por um beijo,

Era possível varar um país sem um ensejo,

Tudo isso foi antes.

.

Antes da nossa falta de olhares,

Antes dos celulares,

Quando as vidas nos importavam,

Quando ainda não importávamos,

Éramos todos mais humanos,

Éramos mais manos,

Éramos mais, mano!

.

Mas algo mudou,

Tudo mudou,

Máquinas, distância, olhares baixos,

Trocamos palavras por textos,

Curtos,

Sempre usando a falta tempo como pretexto,

Enquanto sofremos muito no pouco tempo que nos resta,

Nada é mais como antes…

.

Antes da nossa falta de olhares,

Antes dos celulares,

Quando as vidas nos importavam,

Quando ainda não importávamos,

Éramos todos mais humanos,

Éramos mais manos,

Éramos mais, mano!

.

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Felipe Hudson

Corpos

Para um povo formado comercializando vidas,

O que importa comercializar em meio a morte?

Entregar o povo a própria sorte,

Permitir que convivam com a possibilidade de se contagiar com um vírus letal,

Lhes parece normal,

Como os corpos empilhados em quilombos ou navios negreiros durante o período colonial.

Não há nada de novo em um corpo pobre estendido no chão,

O importante são os comércios fervilhantes,

Como nas minas de diamantes,

Como esperar conscientização?

Construímos nossa história sobre tijolos de desigualdade,

Corpos foram feitos de degraus,

Cabeças enfeitaram postes,

Açoites eram praticados antes e após as missas,

Como uma espécie de ritual,

Matar negros e pobres é uma premissa,

Para uma espécie de ascensão social.

O que lhes causa indignação nesta pandemia?

A indiferença em relação as vidas periféricas para “salvar” a economia?

Ou empregados domésticos em ônibus apertados para que os patrões passem seus dias deitados?

Te espanta o número de contaminados?

Ou um governo desumanizado, interessado nos próximos financiamentos de campanha,

Criando cargos para serem trocados?

A mim não indigna nada!

Somos apenas a continuação de uma “estória” mal contada,

Seguimos pela mesma estrada,

Um tapete de corpos, como os enfeitados no “corpus christi”,

Ladrilhada por mentiras, hipocrisias e histórias mal contadas,

Inventadas!

Mas no país oficializadas e chamadas de “História do Brasil”.

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Felipe Hudson

Frestas

Observo o céu pôr uma fresta entre dois prédios,

Ainda consigo ver duas ou três estrelas,

As vezes consigo ver a lua,

Quando ela está cheia,

E minha cabeça está vazia de problemas.

Antes dos prédios a visão era outra,

Livre,

Solta,

O vento corria forte e vinha de encontro ao meu rosto,

Sem esforço eu adormecia,

Mal conseguia contar uma centena de estrelas no céu.

Hoje sufocado no concreto,

Levanto a cabeça em busca de ar,

Faço como os galhos tortos das árvores,

Me contorço em busca de luz nas frestas que a vida ainda permite,

Estes pequenos espaços diminuem proporcionalmente as especulações,

A ganância dia após dia esgana (e engana) a população periférica.

E até o céu estrelado que podíamos admirar nas periferias,

Em noites onde a ausência de balas “perdidas” ou de batidas policiais nos permitia,

Nos foi tirado dia após dia,

Prédio após prédio,

Erguidos sem qualidade e visando o lucro,

Concretizando em nossas vidas o tédio de viver observando por frestas.

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Felipe Hudson

Dias somados

Este desenvolvimento,

Esta metamorfose diária é tão intensa,

Não faz muito tempo, o frio me agradava,

Me divertia com a fumaça que saia da minha boca,

Com as pontas dos dedos roxos,

Com o cobertor pesado na hora de dormir,

Mas bastou os anos passarem,

Bastou refletir e sentir,

E desejei o frio bem longe de mim…

Em outros momentos,

Me diverti tomando sustos,

Assistindo filmes repletos de sangue e roteiros previsíveis e por vezes mal escritos,

Algumas vezes fingi gostar de noites mal dormidas,

Mas hoje não as suporto,

Tão pouco os filmes de terror e a violência neles expressa!

Talvez o frio também me violente e isso me fez desgostar,

Esse monte de roupas prendendo os movimentos,

Partes do corpo geladas e o coração lutando por aquecê-las,

Acredito que seja isso…

Como a noite,

Que por anos me embalou em seu feitiço, mas que hoje não me encanta,

Me encantam mais os dias de sol,

Temperaturas amenas,

Vida amena,

Pequenos prazeres,

Me encanta sorrir e poder viver em liberdade,

Ainda que o regime seja semiaberto,

Assim como disse Foucault,

Que sempre exista um vigia por perto,

Mesmo assim,

Me agradam os dias somados!

Mesmo somados em regime semiaberto!

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Felipe Hudson

Sobre o ódio aos homens e a orientação para amá-los!

Vivo essa relação com a política,

Odeio os políticos!

Mas gosto de me relacionar com a política,

E os políticos se parecem bastante com boa parte de nós homens,

Prometemos mais do que entregamos,

Somos imaturos e inseguros,

Em grande parte, mimados!

Nos vangloriaríamos de coisas que muitas vezes não fizemos,

Ou pior, nos vangloriamos de atos que seriam nossas obrigações,

Cobramos aplausos por obras mal feitas e geralmente entregues com atraso.

Somos fracos,

Geralmente vivemos coligados,

Aliados a partidos ou amigos que não nos levam a melhorias efetivas,

Visamos apenas pequenas e passageiras conquistas,

Crescemos extremamente inseguros em nossa masculinidade,

Repletos de vaidade,

Crescemos investindo em tênis caros e motivos para andar descamisados,

Na vida adulta adicionamos os carros,

E estes variam de tamanho, potência e altura do som, proporcionalmente ao número de vezes que brochamos,

Ou inversamente proporcional ao tamanho que disseram que deveria ser o nosso pau!

Pau? Até o apelido vai mal…

Camuflamos nossos desvios de conduta em discursos inflamados sobre honestidade,

Juramos lealdade,

Projetamos unidade,

Mas entregamos apenas uma eterna adolescência sentimental,

Rasa, imatura e imoral,

Se ainda houvesse rompantes adolescentes na esfera sexual…

Mas nessa também reina a promessa,

Pedagogicamente aprendida em vídeos curtos,

Que assistimos escondidos,

Camuflando o adolescente inseguro na máscara de adulto astuto e bem sucedido,

E como políticos…

Sem perceber, somos sucedidos, dia após dia por nosso machismo,

Superados pelo egoísmo e substituídos por qualquer coisa que proporcione o mínimo prazer sem o revés da decepção passados cinco minutos,

Assim como a política…

Aposto em um político e antes do segundo turno já confirmo tratar-se de um corrupto,

E tem-se o fim abrupto e então me questiono,

“Por que diabos eu gosto de política?”

E cada vez mais cansado e desanimado acompanho o surgimento de um novo nome em quem apostar,

E baixinho repito,

“Vou arriscar mais uma vez, mas só dessa vez!”

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Felipe Hudson

“Montevideo”

Quando estou em Montevidéu,

Estou em casa,

Caminho pelas calçadas largas,

Me sinto abraçado pela brisa contínua que vem do Prata,

A “Rambla” extensa me traz paz,

Seja em uma tarde ensolarada ou em um dia chuvoso de inverno,

Nunca me senti só quando estava em Montevidéu,

Tenho a plena certeza que lá não nasci por puro deslize,

Talvez tenha sido jogado dos céus,

Como jogamos o “garoto amarelo” no mapa do Google,

E por puro descuido,

Acabei por cair mais para cá,

Poderia ter sido mais para lá,

E estaria sentado na “Plaza Matríz” acompanhado de um “cortado” e uma “medialuna”,

Quem sabe torceria para o Nacional? Quem sabe para o Peñarol?

Vestiria a Celeste com um orgulho nato e com a esperança do ressurgimento,

Valorizaria minhas cores e não as entregaria em avenidas com injusto lamentos,

Usaria lindos uniformes escolares, conheceria mais sobre a América Latina e sentiria orgulho de minha latinidade,

Tomaria erva-mate e chimarrão sentado na porta de casa,

Veria alguns cachorros passeando pela cidade, livres!

Comeria alguns “chivitos”, muitas “parrilladas” e “alfajores”,

E seria feliz em longas caminhadas pelas ruas planas e largas!

Fecho esse poema me desculpando pelo simples olhar sobre a cidade,

Foram apenas alguns lindos dias em duas visitas,

Nada mais,

Mas poderia ter sido uma vida!

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Felipe Hudson

(A)batidas

Bate o coração,
Bate tristeza,
Bate pressão,
Bate solidão,
Bate no poste,
Bem forte,
Mas ainda bate o coração,
Teimoso,
Receoso,
Desesperançoso,
Mecânico,
Acelera em crises de pânico,
Mas bate como se estivesse parado,
Bate congelado,
Mas ainda bate,
Abafado,
Calado,
Assustado,
Mas não como em tempos passados,
Hoje ele bate cansado,
Obrigado,
Bate para ver o tempo passar,
E o tempo passa arrastado!

 
Felipe Hudson

O fogo e a vela: atos de fé!

A cera quente escorre pelas minhas mãos,
Firme seguro a vela!
A chama queima pelo passado,
Queima pelo futuro,
Queima pelo presente e pelo que um dia foi errado,
A vela queima para o meu Deus de toda vida,
Mas a vela queima para quem um dia foi o diabo,
A vela queima a história do Brasil,
Queima como os livros um dia queimados,
A vela queima pecados, queima dúvidas, queima dívidas, queima o mal praticado,
A vela queima a cera e derrete os pecados,
A vela queima as horas e os sofrimentos acumulados,
A vela clareia o quarto, a sala e o terreiro enfeitado,
A vela dança ao vento, o fogo jamais fica parado,
O fogo aquece, queima, transforma,
O fogo ilumina o passado,
O fogo aquece minha alma,
O fogo nos traz o recado,
O fogo acalanta nossa alma,
Nos faz sentir amados!
O fogo não permite exageros,
O fogo não nos ajuda apagado!
O fogo e a vela nos põem de joelhos,
Na esperança de um dia nos ver levantados!

 

Felipe Hudson

Da Quarentena: E agora Jair?

Se na quarentena,

Que pena,

Já perdemos centenas,

Vidas sentidas pelas lágrimas escorridas,

Imagina se seguíssemos essa tática suicida,

Deste velho genocida,

Que se acha jovem em suas flexões de pescoço malconduzidas,

Assim como malconduzida é sua própria vida,

Sem controle de seus filhos, milicianos, corruptos, e quem sabe homicidas,

Cercado por um pasto de incompetentes,

Que cresce como capim em terra boa,

Por ele escolhidos de forma à toa,

Ou em troca da sua coroa,

Que julgava ser de rei,

Mesmo conseguida na sorte,

Não entendeu ser apenas o bobo da corte,

Natimorto,

Nascido programado para morte,

Como o palhaço tolo que nunca teve talento,

Que morreu ao relento com suas piadas sem nexo,

Em descompasso com a vida,

Perplexo! Olhando em um rio poluído seu reflexo,

Apagado em meio as fezes,

Dependendo de preces pagas para deuses corruptos,

Movidos a dízimos e sem escrúpulos,

Que o abandonarão no primeiro sinal de falência,

E voltarão aos postos de urubus,

Aguardando ver o reles soldado cair,

Como carniça,

E simplesmente dirão,

E agora Jair?

 

 

Felipe Hudson

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