Tem mistura, tem mistura, isso aqui é uma loucura.
Misturaram todas as cores, escandalizaram a brancura.
O que era santo virou diabo,
Misturou-se o frango com quiabo,
Na travessia do oceano os papéis foram trocados.
Quem era rei virou escravo e virou rei o degredado,
O que não servia em Lisboa pra cá foi enviado.
O africano não queria, mas de lá foi arrancado,
E entre trancos e barrancos o Brasil foi desenhado.

Um desenho de várias formas,
Curvas e retas foram mescladas,
Mas na hora da pintura uma cor foi renegada.
Só queriam cores claras,
O artista era europeu,
O preto, o marrom e o vermelho o colono escondeu.

Mas como é que fica claro se a tinta misturou?
O preto mesclou com o branco e o índio também pintou.
Em um arco íris de etnias o Brasil se transformou,
Tem negro, tem branco, tem pardo e o mundo pra cá migrou.

Da Turquia chegou Santa Bárbara
Iansã era africana,
Nanã era sua mãe,
Mas aqui virou Sant’Ana.

São Jorge é guerreiro,
Comparado a Ogum.
Igreja virou terreiro,
E na travessia do Atlântico Nossa Senhora virou Oxum.

Até Exu que era alegria e abertura de caminho,
No Brasil sofreu tortura e teve que andar sozinho,
Pelas suas características foi julgado e condenado,
E em meio as injustiças miscigenado com o diabo.
Nessa pecha de malvado confundiram as esculturas.
Colocaram chifre e rabo, esqueceram sua cultura.

Manuel e Dona Maria acabaram se encantando,
Mas falaram que o sotaque do diabo era angolano.
E no Brasil de tudo tem,
Tem Manoel, Joaquim, tem Bahia,
Tem Anastácia, Xica da Silva e Potira,
Tem Iansã, tem Jesus e tem Maria,
Ás vezes santíssima, ás vezes Padilha.

F.T. Hudson

Publicado no Concurso de Poesias 2013 – UFSJ