Dizia que estudava,

Não sei bem o que cursava,

Mas era a tal de faculdade,

Trabalhava de verdade,

Mal tinha tempo de dormir,

Era só trabalho e livro,

Andava meio deprimida,

Na época ela dizia “oprimida”,

Era isso que dizia!

Entrou num grupo pra lutar,

Disse que queria guerrilhar,

Mas nunca entendi quem queria intimidar,

Só fazia era se juntar,

Ir pra rua e gritar,

Voltava sempre esbaforida,

Suada, carcomida, com poucos sorrisos,

Mas já não parecia tão oprimida,

Parecia decidida,

Era sigla pra lá, corrida pra cá,

Segredos daqui, apelidos dali,

Pra mim era brincadeira de menina,

Pra ela era coisa séria,

Eu via notícia de paz na TV,

A menina e o namorado só falavam de guerra,

Depois soube que ela era mais decidida,

Que na música que o menino dançava era ela que comandava as batidas,

Lembro que os dois eram bem despachados,

Só não gostavam de ver homem fardado,

Ficavam suados, preocupados,

Reclamavam que seus grupos se dividiam,

Que muitos de seus amigos sumiam,

Fiquei preocupado quando disseram que se feriam,

Desconfiei que às vezes mentiam,

O coronel não parecia tão cruel como diziam.

Um dia decidi tirar essa história de guerrilha a limpo,

Queria saber o que os dois sentiam e lhes contar sobre o que eu sentia,

Não queria minha menina pelas noites perdidas,

Queria saber o que acontecia,

Esperei ela chegar em casa,

E faz mais de quarenta anos que minha casa está vazia!

Ela nunca mais voltou,

Eu nunca soube o que se passou!

Ela foi para passeata,

Como sempre apressada,

E eu vivi quatro décadas de uma vida fracassada,

Na espera de ao menos receber minha ossada.

 

F.T. Hudson