Você vale o que tem,
Você fala o que tem,
Você vive o que tem,
Você deseja o que não tem,
Você quer o que nunca terá,
A busca é incansável e não terá valor quando você conquistar,
Porque você quer o que você não tem,
Você quer a grama do vizinho,
O sorriso do menino,
O dinheiro do burguês,
A ideologia do intelectual,
Você quer a esperteza do bandido,
Quer a coragem do bom policial,
Quer o dinheiro do político,
E quer o reconhecimento do acadêmico,
Você não quer ser você,
Você quer ser o outro e nunca será,
Você não quer seu destino,
Quer ser gringo,
É adepto da “boa trapaça”,
Imita os filmes estrangeiros,
Quer ganhar em euro,
Mas não copia os planos de assistência social,
Você quer ser o outro desde que o outro esteja melhor que você!
Vai se foder, eu sei que vai, eu conheço você!
Não se coloca no lugar do coitado,
Não reconhece seu filho bastardo,
Não dá em um pobre um abraço apertado,
Você não aceita que a periferia cresça,
Não pode imaginar um ser periférico acima da sua cabeça!
Você não enxerga o pivete até que suas vidas se cruzem,
Você não imagina que em segundos as situações mudem,
Você que está sorridente,
Que caga regras sobre quem tem fé, sobre ser crente,
Acha que nunca ficará doente,
Mas um dia sua vida pode cruzar com o azar periférico,
O monstro que assombra a periferia todos os dias,
E você não suportará o encontro,
Algumas coisas nunca mudam,
Mas sua vida pode mudar,
Hoje está do lá que ganha,
Amanhã alguém te derrotará.

Felipe Hudson