Chico que não era Buarque,
Mas sabia tudo da ciência,
Não era também de Holanda,
Mas comandava uma nação,
Que talvez fosse zumbi apenas por nunca dormir,
Chico Canção fazia previsões sobre o futuro,
Escrevia entre batidas o refrão de uma prece,
Entre o crescimento da cidade observou algo que ninguém enaltece,
“O de cima sobe e o debaixo desce”,
Era uma leitura do presente aplicada no futuro e copiada do passado,
O debaixo vive aterrado,
E quanto mais tenta se livrar da terra mais terra é jogada,
Terra que pelo de cima é pisoteada,
E quando pensa em dar uma simples respirada,
Sua fala é sufocada,
Abafada por leves risadas de que a nação é igualitária,
Que não se deve ouvir o discurso da gentalha,
As migalhas recebidas são contadas e questionadas,
Afinal “bolsa família” é coisa de gente acomodada,
Os lucros do povo rico não deixam a terra abalada,
Dai, pois aos debaixo o cabo de uma boa enxada,
Precisam mais do que roupa lavada,
Precisam também de farta mesa de bolachas de terra,
Que embora poucos conheçam é iguaria no Haiti,
Não que eles gostem, mas é o que sobrou por ali,
Mas o que importa se o “Haiti não é aqui”?
Se o Caetano criticou, mas eu também não entendi?
O importante é curtir,
A periferia implodir,
Lembrar que o debaixo existe quando a faxineira sucumbir.
E de quem você vai rir?
Quando o debaixo não existir,
Quem fará o “rap” triste que você irá ouvir?
Quem te fará sentir bandido sem do apartamento sair?
O que será de você quando seu castelo de areia cair?
O que será do de cima quando com o debaixo realmente colidir?
Talvez fiquem mesclados,
Quem sabe juntos e enterrados irão se unir?

Felipe Hudson