Não me orgulho de por aqui ter nascido,
Sempre reneguei esta cidade e todo seu concreto,
Seus relacionamentos abstratos,
Reneguei qualquer coisa que remetesse ao seu nome,
Torci pelo adversário apenas para te combater, oh São Paulo!
Nunca embarquei em sua locomotiva,
Sempre discordei no caminho escolhido pelo maquinista,
Desprezei o colorido tolo de sua bandeira,
E a história exposta em suas estantes,
Nunca admirei os tais bandeirantes,
Em suas representações bem vestidas e suas realidades rasgadas e maltrapilhas,
São realmente os representantes deste espaço,
Completamente sujos e rasgados, mas sempre muito bem retratados,
Passei parte da vida tentando escapar de suas ruas,
Sempre sem sucesso,
Como a presa que caiu em uma teia por tropeço,
E que quanto mais se mexe mais se prende a armadilha,
Em sua vida vazia e contraditoriamente corrida,
Onde mesmo em bares divertidos,
Em rápidos goles se tomam as bebidas,
Onde tudo é muito apressado,
Até mesmo as noites divertidas,
Os relacionamentos são tão profundos como uma simples faísca,
Que em duzentos contatos com a madeira talvez produza uma simples chama,
Falta tempo para dizer que se ama,
Falta amor para se conseguir tempo,
Falta sentimento,
Tudo aqui é cinzento,
Todo lugar tem cimento,
Pra derrubar alguém sempre é o momento,
Se for para ajudar o processo é lento,
A brisa de agosto é gelada,
Dezembro é extremamente abafado,
A juventude caminha chapada,
O ano todo, toda cidade é seca,
No verão as ruas ficam alagadas,
São extremos,
Pobreza extrema,
Riqueza extrema,
Muito dinheiro para uma faixa pequena,
Para maior parte distribui-se pena,
Cenas paulistanas,
Cenas urbanas,
Sampa.

Felipe Hudson