No caminho que eu faço,
Existe amor e descompasso,
Existe flor e alabastro,
Um gesso fino que se quebra em um passo,
Existe um rio profundo e um lago raso,
Com água parada e certo mormaço,
Mas tem correnteza no profundo riacho,
E basta um cochilo para estar desabrigado,
Livre do cotidiano arrastado,
Na água jogado.
O lago é calmo, mas sem perspectivas de ver paisagens de sentir a vida,
O rio é violento,
Deveras barulhento,
Tal qual um tormento não me deixa pensar,
Saio a navegar sem destino,
No rio de cachoeiras, quedas livres, corredeiras,
Tem pedras no fundo,
Cobras, peixes,
Oriundos sabe-se lá de onde,
Tem até um velho bonde,
Enferrujado,
Que como carcaça foi jogado para virar casa de peixe,
No rio tem tudo isso e sabe-se lá mais o que,
No rio tem que ter coragem!
No lago tudo calmo,
Continua morno e parado,
Da pra se deitar,
De costas ou de lado,
E imaginar, em meio ao dia arrastado,
Como corre o rio movimentado,
Como corre desajeitado,
Cheio de novidades,
No lago nada mais do que brisa e calmaria,
Mas sem estresse, tudo sempre calado, parado,
Poderia cansar?
Apenas se a imaginação estagnar,
Caso contrário,
Estando no lago estou onde a cabeça mandar,
Sem algo a me empurrar,
Além do mais,
Sem criatividade no rio não vai adiantar,
Serei só mais uma jangada vendo a correnteza me levar,
Esperando um momento para ao lago voltar.

Felipe Hudson