O escravo que dançava com alegria para Xangô,
Ajoelhava para São Pedro quando via o Sinhô,
Ele não sabia bem como tudo começou,
Sabia apenas que na travessia algo mudou,
Ao desembarcar nos portos logo identificou,
A diferença de tratamento tinha relação com sua cor,
O destino lhe reservava poucos sorrisos e muita dor,
E negro deste lado do Atlântico não era senhor,
Em meio aos pensamentos o chicote nas costas estalou!
Zé das Almas se levantou,
A colheita era pesada,
Assim como o dia em que a plantou,
Esperava liberdade,
Mas ninguém o libertou,
O destino da pele escura no Brasil era o terror!
Contaria com Legbá para lhe dar forças contra o ardor.
Resolveu pedir ajuda para sua mãe que era Iansã,
E quem sabe apelaria para sua avó Dona Nanã,
Pra tentar se tornar livre, mas com sua mente sã,
Pra ver se no Brasil orixá tem amanhã,
Ou um futuro qualquer que não seja coisa vã,
Um corpo estirado no chão,
Jogado aos cães pela manhã!
O seu tataraneto até hoje espera respeito,
E escuta que o Brasil é um país sem preconceito,
Nas horas boas, nas rodas de samba, todos são criolos e alguns se acham até pretos,
Mas só os descendentes das Almas é que sentem a angústia no peito,
Porque nas horas difíceis todos são brancos ou no máximo pardos,
E se for possível, até mesmo, mantém os cabelos raspados,
Quem sabe assim não escondem um pouco do seu passado?
E deixam a descendência de Zé das Almas num lugar bem resguardado,
Evitando assim por boca clara ser um tanto debochado.
No passado,
Novamente ajoelhado,
Zé das Almas pede de forma encarecida,
Que suas preces não sejam causas perdidas,
Que os homens assim como as almas lhe tenham as mãos estendidas,
E que a igualdade seja realmente pra todos,
E não somente prometida!
Ou apenas mais uma pedida,
De quem estoura seus pulmões em prece,
Para que um dia elas sejam atendidas,
Ou quem sabe ao menos ouvidas,
Ou publicadas por gente entendida.

Felipe Hudson