Contam que Deus quando criou o Brasil,
Pensou em algo primoroso como um céu azul anil,
Distribuiu pelos quatro cantos felicidades mil,
E criou no povo uma mistura febril.
Pôs pra correr água em abundância,
Imaginou longe deste lugar a ganância,
E embaixo daquele céu estrelado,
Deixou a dormir uma porção de homens pelados,
Animais a correr espalhados,
E toda sorte de inocência,
Que nada tem em relação com a demência e sim com a ausência de maldade,
Por não haver necessidade de se brigar por liberdade,
Muito menos sentir piedade de um lugar onde nem se quer pôs os pés a maldade.
Era tudo tranquilo,
Não havia o dinheiro rompido como a passividade e a humanidade,
Era tudo cooperação,
Não havia exploração,
Isso é o que contam!
Mas quando eu acordei estava tudo diferente,
Tinha moleque de arma, doze balas no pente,
Órfãos jogados, muita gente doente,
Com o corpo saudável, mas totalmente demente,
Tinha droga a rodo e tinha crime também,
O sol era quadrado,
Todos eram reféns,
E o mundo era cheio, mas não tinha ninguém,
O anil era sangue,
E o Brasil só um trem,
Parado em uma estação,
Com maquinista ladrão,
Sem saber aonde ir, sem ter uma direção,
A linha férrea acaba em um precipício,
O exército luta com pedras,
Não trabalhamos com míssil,
Investir em educação é puro desperdício,
Seu filho pede dois pão,
Mas comprar um só tá difícil,
No país tropical,
Pobre anda meio mal,
Consome só no singular, mas gasta só no plural,
E a saúde que tal?
Não está nada mal?
Parece só uma piada,
Ou papo de gente louca,
Mas tá difícil sorrir,
Só com dois dentes na boca!
E a voz rouca,
O cansar do grito!
O gritar cansado,
Aterrado,
Brasil…