Sentado em um bar, escutei alguns causos ao longo da tarde, muitos eram engraçados, mas estive realmente atento ao caso de um cidadão que queria ser presidente.

Veja se não é engraçado, o sujeito desejava ser presidente, porém tinha um medo danado de conversar com gente. Muito se dizia que tinha medo das palavras, dizem que não articulava muito bem o vocabulário, ainda que esta fosse a única língua que aprendera nesta penosa passagem pela terra. Contam que ele era meio brigado com o idioma, e que não partilhava muita amizade com o dicionário. A questão não era falar errado, a questão era não conseguir formular um pensamento coerente.

Fazia o estilo “machão”, aquele antigo, sabe? Que a gente assistia no “domingo maior”, estilo “Charles Bronson”. No frio corria de regata pela rua, podia estar na tempestade, na nevasca, nada abalava sua conhecida masculinidade. Não tinha medo de nada, dizia que resolvia todos os seus problemas na bala, e que nada o abalava.

O homem gostava de fardas, caras amarradas, e em seu curto vocabulário não existia “perdão”. Se dizia um político novo, vindo do futuro, direto dos “áureos tempos” da ditadura, era tão antigo quanto o brilho de nossa seleção. Dizia que não entendia nada de economia, saúde ou educação, tão pouco de relações pessoais, mas que tinha uma equipe para tudo, e que era justamente o fato de não entender nada sobre política que o faria um grande político.

Alguns diziam que era canalha, mas não sei se chegava a tanto. Comentei com um pícaro que me olhou com espanto: “Para ser canalha precisa ser esperto, e esse cabra não tem esse encanto! ”

Contavam pelas esquinas que era um cara obscuro, com alguns deslizes no passado, nada provado, nada procurado, talvez por ter uma vida insignificante nunca o interesse tenha despertado. Mas agora que os holofotes estavam sobre ele, começou a ter um medo imenso de sair de casa, de ter seus segredos revelados, porque na luz do sol aparecem as deformidades. Resta saber se ele tem orgulho de suas cicatrizes e pode expô-las à luz, ou se prefere manter-se na neblina de ideais totalitários.

A cada gole de cerveja pensava na história daquele homem, que não sabia ao certo o que era porque ladrilhou sua vida em conflitos, machista por insegurança, fingia ser evangélico, mas não conhecia a palavra, fingia ser político, mas desconhecia política, fingia ser humano, mas desconhecia humanidade, solucionaria a economia, mas não entendia de números, gostava do militarismo, mas não atuava como militar, queria ser presidente, mas nem campanha sabia fazer, queria usar as pessoas, mas não percebeu que era apenas um fantoche e como todos os fantoches só teria vida enquanto o “titeriteiro” quisesse lhe dar a vida.

Resta saber quem comanda o títere, ou crer na utopia de que o próprio boneco lhe corte as cordas, ainda que seja para permanecer deitado no chão, de onde nunca deveria ter saído.
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Felipe Hudson