Previsões do tempo em salas climatizadas,
Análises frias,
Distantes do envolvimento encalorado dos acontecimentos,
Opiniões que julgamos imparciais,
Mas que carregam a parcialidade de nossos lares aquecidos,
O calor que julgamos suportável sentados em salas com aparelhos de ar condicionado,
A fome que vemos normatizada e compactuamos em nossas mesas abarrotadas,
Em ceias pautadas por desperdício e julgamentos amparados em algo fictício,
A realidade de um mundo erguido entre paredes, mármore, madeira e sistemas de segurança,
E com a boca cheia, enfastiado em sua comilança,
Entre uma castanha e outra que lhe escapa pela boca,
Esculacha-se quem tem fome, debocha-se de quem não é “homem”, louva-se o absurdo.
Com um misto de agradecimento pela saúde e a vontade de por alguns minutos ser surdo,
O homem caminha,
Em pensamentos está distante,
Distante do terror de compactuar com a cegueira,
Buscando cegar-se caso identifique que aquela seja a realidade, a verdade verdadeira,
Quer apenas encolher-se em um sofá macio,
E afundar vagarosamente,
Até ser absorvido completamente e transportado para outra sala,
Onde exista apenas o necessário,
Sorrisos, abraços apertados, gargalhadas calorosas,
Onde ofereçam-se rosas em vastos jardins observados da varanda,
Ao fundo a música preferida tocada por sua banda,
O homem não precisa mais caminhar,
Não precisa do sofá macio,
Apenas uma rede preguiçosa para deitar,
E um vício gostoso para compartilhar,
Poder chamar por alguém distante, apenas para chamar a atenção,
Utilizando a voz levemente alterada,
Como quem busca por abrigo,
Chamar como os bons chamam os garçons:
– Por favor, Amigo!
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Felipe Hudson