Questionaram minhas emoções,

Pediram versos sobre paixões,

Sobre amores ou desilusões,

Disseram que versos são para tocar corações,

Mas não entenderam o que eu faço,

Escrevo justamente sobre amor,

Sobre o local onde iniciei os meus passos,

Falo sobre um lugar abandonado,

Por alguns rejeitado,

Mas que desperta paixões,

Sou um desses apaixonados,

Falo da periferia de São Paulo,

Onde nas décadas de 80 e 90 éramos um pouco atrasados,

Mas curtíamos nossas vidas ainda que um pouco alienados,

Alienados sobre as riquezas ou sobre as corjas de deputados,

Cientes apenas dos crimes, da violência e do descaso ao qual fomos relegados,

Falo do “Capão Pecado”,

O lugar onde pelas autoridades fomos abandonados,

E quando apareciam algumas fardas não eram para trazer bons resultados,

Muito pelo contrário,

Era baixa na vizinhança,

Alguém sumindo dos barracos,

Era época de “pé de pato”,

Tinha gente que gostava,

E uma maioria revoltada,

Tinha esquadrão da morte,

Cabo Bruno na caçada,

E a molecada contando com a sorte,

Candomblé e Umbanda só na surdina,

Crente se contava nos dedos,

Não se achava pastor em esquinas,

A rotina da periferia era o medo,

Mesmo assim a fé era forte,

Precisava ser,

Para escapar do sentimento de morte,

Corpos na latrina,

Sangue escorrendo na guia,

Vermelho era a cor preferida,

Para se ver pelas ladeiras escorrida,

Pulava-se os corpos a caminho da escola,

Aula era loteria,

Educação não é prioridade nas periferias,

O futuro não existia,

Previsão é para quem tem esperança,

Para pobre é dia após dia,

Entre um banho de sal e uma simpatia,

Com medo da macumba, mas procurando magia,

Algo mágico que a dor alivia,

Que faça a viagem mais tranquila,

E o relógio noturno passar com letargia,

Com a cabeça cheia e a vida vazia,

Algo mágico que ponha fim nessa ironia,

De criar filho de rico e entregar os próprios a covardia,

Confiando na divisão da “mais-valia”,

Com mais fome para o pobre,

E para os ricos todas as iguarias,

Magia que reúna sua família,

Para parar de chamar qualquer um no farol de “tia”,

Para parar de ser chamado de qualquer um pelas “tias”,

Para poder viver de poesia,

Para poder falar só de amor!

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Felipe Hudson