Os dias são cinzas,

Faz tempo que o sol não vem brilhar,

João perdeu o emprego,

Não tem ninguém para o sol acordar,

Dias de solidão,

Amigos partiram,

O silêncio agora o incomoda,

Vozes sorrateiras o cobram,

A sociedade questiona quem lhe paga as contas,

Não porque João lhe importa,

Mas porque a miséria atrai julgamentos,

João agora é culpado por ser muito ligado a sentimentos,

Se importasse menos com os outros,

Se valorizasse seus momentos,

Teria derrubado, dois, três, quatro,

Conseguiria vários aumentos,

Optou por não atropelar ninguém,

Mas por alguém foi atropelado,

Todos que em algum momento ajudou,

Agora o acusam,

Faltaram-lhe argumentos,

João tornou-se fraco,

Por isso foi pisoteado,

“O patrão está certo, João é ultrapassado!”

Dizem todos os novatos,

Os velhos funcionários que querem se manter concordam,

E passam a noite em claro esperando sua hora,

O patrão dorme tranquilo,

Orquestra a rinha de gados,

Todos brigando,

Lutando pelo pouco pasto,

O patrão reduz o cercado,

Propositalmente diminuí o gramado,

E o gado de cabeça baixa não percebe além do quadrado,

Não percebe os vastos pastos,

Onde todos poderiam ser alimentados,

Verdes gramados,

Inutilizados!

Milhares de hectares,

Apenas para rolar a bola de seus filhos abastados,

Bastardos!

Como se não bastasse reduzir,

Envenenam os pastos,

Que vida de gado!

A coisa desandou,

Está pior do que o Zé Ramalho anunciou!

E o João?

Coitado!

Está em pé na beirada do viaduto no dia do trabalho,

Não tinha o que comemorar no primeiro de maio,

Pegou um atalho!

E foi julgado!

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Felipe Hudson