As mãos suavam a espera de uma bala ou balão,

Coração batia mais forte,

Final de setembro tinha Cosme e Damião,

Sacos de balas, doces, bolos, guaraná,

Tinha alegria, abraços, muitas casas para visitar,

De terreiro em terreiro até enjoar,

Brigadeiro, beijinho, arroz doce, guaraná,

Chuva de balas jogadas para o ar,

Era dia de Ibeji eram os filhos de Euá.

Não tinha criança na vila que não estivesse a esperar,

Pelas festas de setembro, pelo tal do guaraná,

Era dia de fartura, era dia de esbanjar,

Era festa de Ibeji,

Eram os filhos de Euá!

 

Os anos se passaram,

Eu nunca pude imaginar,

As coisas ficaram difíceis,

O doce começou a amargar,

Queimaram nossos terreiros,

Vandalizaram nossos orixás,

Demonizaram o meu brigadeiro,

Praguejaram contra Oxalá!

 

O sincretismo minguou,

Minguaram também o respeito e a tolerância,

Alegrias da infância viraram lenda,

Não nos ofertaram mais esperança,

Trocaram balas de goma por balas de borracha,

Não escuto mais risadas,

Crianças não querem pirulitos do zorro,

Querem coletes a prova de balas e gritam por socorro!

 

O que pensariam Cosme e Damião,

Se estivessem correndo pelo Aiye fugindo de munição?

Distribuindo sorrisos e travessuras e recebendo punição,

Sentiram o sangue gelar como acontece com qualquer irmão,

Fugiriam dos tiros de fuzil como qualquer cidadão,

E em dias que as balas cruzassem os ares deitariam no chão,

Pediriam a Xangô por justiça,

E a Olorum proteção!

 

Seriam estatísticas mal investigadas,

Corpos mortos na escuridão,

Mesmo esperando por gargalhadas descompassadas,

Veríamos reduzir a respiração,

O ar nos pulmões um sopro fraco,

O fraquejar do coração,

Batidas cada vez mais silenciosas,

Veias sem pulsação,

Não haverá doação de órgãos,

Cobertura da mídia não haverá,

Não haverá caruru ou cocada,

Tão pouco haverá vatapá,

Enquanto matarem nosso povo somente lagrima rolará,

E para que nosso pranto não seja em vão,

Salve Cosme e Damião!

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Felipe Hudson