Não vai dar certo,

Não te ter aqui bem perto,

Não saberei ao certo,

Se faço a curva ou sigo reto,

A caminhada será dura,

Não haverá pecadora tão pura, que esteja a sua altura,

Um resfriado será como uma doença sem cura,

Não terei sua companhia em noites escuras,

Me sobrará apenas a televisão,

Baixa, brilhante e incomoda,

Com quem dividirei minha cômoda?

Não terei com quem trocar minhas roupas,

Não sentirei vontade de beijar outras bocas,

Não terei em meu ouvido sua voz tão rouca,

Não lavaremos juntas nossas roupas e louças,

Não brincaremos mais de enfermeiras e aeromoças,

Não seremos cobradas por estarmos fora dos padrões,

Não sofreremos juntas os preconceitos e agressões,

Não estaremos unidas contra os machões,

Não passearemos pela Paulista ouvindo os gritos de “sapatões”,

Não existe você sem nós,

Não existo sem nós,

Nossas vidas foram atadas em nós,

E ainda que em meio a nossa separação eu só consiga ver os contras e nunca os prós,

Às vezes me pergunto, por onde anda o tal Queiróz?

Como combaterei sozinha um governo atroz?

Como será ouvido meu grito único sem a sua voz?

Como xingarei meu algoz?

Como viver sem nós?