Éramos todos pobres!

Mas fingíamos que não éramos,

Gostávamos de nos achar ricos por ter a vida repleta de parcelas,

Claro que uns tinham dificuldades maiores que os outros,

Mas ninguém podia deixar de trabalhar se quisesse manter em pé este corpo.

 

Éramos todos pobres!

Policiais, professores, enfermeiros, microempresários e funkeiros,

Éramos todos pobres, mais da metade dos trabalhadores brasileiros,

Éramos todos pobres e vivendo a mesma situação,

E então, para evitar confusão atribuíram títulos e formaram as divisões,

Surgiram classes, estatísticas, porcentagens e o pobre virou classe média com um tostão!

 

Extrema pobreza, pobre, classe média baixa, classe média, classe média alta, rico, milionário,

Um milhão de divisões para nos fazer de otários!

Criaram separações e então não éramos mais pobres, ainda que o almoço fosse arroz e bofe,

Surgiu a ilusão de que se tornaria rico quem tivesse mais prestação,

Carro, apartamento, celular e guarda-roupa financiados te livrariam da rotulação.

“ Ser pobre? Deus me livre, eu compro tudo no cartão! ”

 

Por trás da fantasia era clara a situação,

Era pobre matando pobre não se sentiam mais irmãos,

Os realmente ricos eram grão de areia na população,

Mas dominavam todo mercado financeiro e os meios de produção,

E pobre era todo aquele que trabalhava e era vítima de exploração,

Não percebiam que o rico vive de rendimentos e não possui calos nas mãos,

Quer para ele todos os lucros e não concorda com distribuição.

 

Éramos todos pobres e quase todos sem percepção,

Não entendíamos as manobras do mercado e descontávamos no próximo nossa frustração,

E como próximo dos pobres só haveriam pobres e os ricos estariam em segurança em sua mansão,

Éramos pobres matando pobres,

Éramos irmãos matando irmãos!

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Felipe Hudson