Observo o céu pôr uma fresta entre dois prédios,

Ainda consigo ver duas ou três estrelas,

As vezes consigo ver a lua,

Quando ela está cheia,

E minha cabeça está vazia de problemas.

Antes dos prédios a visão era outra,

Livre,

Solta,

O vento corria forte e vinha de encontro ao meu rosto,

Sem esforço eu adormecia,

Mal conseguia contar uma centena de estrelas no céu.

Hoje sufocado no concreto,

Levanto a cabeça em busca de ar,

Faço como os galhos tortos das árvores,

Me contorço em busca de luz nas frestas que a vida ainda permite,

Estes pequenos espaços diminuem proporcionalmente as especulações,

A ganância dia após dia esgana (e engana) a população periférica.

E até o céu estrelado que podíamos admirar nas periferias,

Em noites onde a ausência de balas “perdidas” ou de batidas policiais nos permitia,

Nos foi tirado dia após dia,

Prédio após prédio,

Erguidos sem qualidade e visando o lucro,

Concretizando em nossas vidas o tédio de viver observando por frestas.

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Felipe Hudson