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Poesias Periféricas

"Vozes da Periferia"

Autor

Felipe Hudson

Cidadão Periférico, nascido no extremo sul da Zona Sul de São Paulo, Jardim dos Ipês, que na minha época era só Jardim Ipê. Vivi e sobrevivi a década de 1980 morando em uma região de alta criminalidade e próximo ao bairro mais perigoso do mundo naquele momento. Hoje, Bacharel em Administração pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, Especialista em Política e Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Bacharel em História pela Universidade de São Paulo - USP com especialização em História da África e do Negro no Brasil cursada na Universidade Cândido Mendes. Por duas vezes aluno do curso de mestrado no Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos - DIVERSITAS - USP, no Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades, mas abandonei por entender que a academia não realiza na prática o que executa em suas fantasias diárias. Sigo nunca esquecendo minhas origens e o lugar onde construí minha consciência e meus ideais de vida! Twitter: @FelipeHudson82 (Poesias Periféricas) E-mail: felipe.hudson82@gmail.com

Dias nublados

Anos isolados em nossos corações gelados,

Distanciados dos abraços,

Por trabalhos escravizados,

Horas e horas em congestionamentos,

Congestionando sentimentos em nosso peito,

O cérebro no automático gerando crises de ansiedade,

Sufocados por prédios, contas e pela solidão das grandes cidades,

Guiados por vaidades,

Perdidos em dias nublados.

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Os anos correram,

Os cabelos foram tingidos na tentativa de voltar no tempo,

Aplicações de botox buscando paralisar o momento,

O apelo a finasterida, buscando evitar a queda,

Tudo foi em vão!

E o pequeno vão que criamos tornou-se um abismo,

Nos afastamos, nos repelimos, nos agredimos,

E nossas recordações ensolaradas,

As viagens planejadas,

A fumaça dos churrascos cancelados,

Tudo se transformou em dias nublados.

.

Mas resta um fio de esperança,

Que reside na ventania,

Em Oyá onde minha fé se cria,

Que se aproxime como brisa,

E que eleve sua potência dia após dia,

Carregue as nuvens e os dias nublados e nos abençoe com amanheceres ensolarados,

Que a vida seja uma eterna quarta-feira,

O equilíbrio entre o cansaço e zoeira,

E que eu possa lhe oferecer uma vela,

E que ela queime,

Como um dia ensolarado!

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Felipe Hudson

Labirinto de Espelhos

Quando abrir os olhos nos trazia expectativas,

E ao fechar, os mesmos olhos, o coração não se enchia de melancolia,

Enquanto erámos felizes,

Vestidos de esperança e alimentados pelas promessas de prosperidade,

Que não sabíamos, mas eram como carboidrato,

Tinha fácil digestão, não saciava plenamente e depois se tornaria excremento,

Há quem conseguiu fazer disso esterco,

E de certa forma adubou a vida,

Mas a maioria despejou dejetos e fomos uns soterrando os outros com nossas frustrações e amarguras,

Os corações pesados e vilanizados foram nos jogando para baixo,

Até que ficamos de joelhos,

Cansados em um labirinto de espelhos,

Onde nem ao menos havia um Minotauro para nos estraçalhar,

Apenas caminhos repetidos,

Reflexos para nos perder como Narciso,

Perambulando sem destino,

Perplexos em nossa autoimagem,

Divagando sobre coragem, foco e meritocracia,

Perdidos em projetos por nós não projetados,

Caminhando guiados pelo mercado, o capital e o cansaço,

Matando a sede em piscinas de lágrimas,

Onde, por vezes, também nos afogávamos,

Não havia saída,

Não havia nada!

O lance é que nunca deveríamos atravessar aquela porta,

De todos os brinquedos deste parque,

Deveríamos evitar o labirinto, a casa de espelhos,

Ou qualquer brinquedo de perdição,

Que nos promete diversão em caminhos curtos,

Então,

Nos restaria apenas nos perder em nossa imaginação,

E isso por si só nos seria trabalhoso,

Mas quem sabe ao menos prazeroso,

Por agora, quero apenas fechar meus olhos,

Já me bastam os espelhos.

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Felipe Hudson

Divã

Quando o coração dilacera,

O som lhe invade a alma,

O fragmento de calma estilhaça,

A alma sai do corpo,

Por um momento olha o espectro branco e vazio,

Jogado ao chão,

Baleado pela verdade,

Com seu mundo de expectativas estilhaçado,

A verdade rasga o peito,

Como um soco no queixo,

Que chacoalha o cérebro e inibe qualquer raciocínio,

A realidade não sente pena,

Ela invade o coração e dilacera seu bem-estar,

É um mergulho no mal-estar,

Mas é busca por renovação,

O batismo,

Os sentidos atentos, as informações absorvidas,

O coração impactado, mas a possibilidade de vida,

A saída desejada,

O passeio no pântano para encontrar a luz,

A verdade é como sair de um quarto escuro e encontrar um dia ensolarado,

A luz invade os olhos, cega, causa mal-estar, mas depois tudo fica claro, nítido, saudável,

O alívio após a dor é quase melhor do que nunca sentir esse desconforto,

Não nos sentiremos heróis sem um dia nos sentirmos escrotos.

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Felipe Hudson

Expectativa

Expectar,

Esperar,

Esperança,

Possibilidade,

E onde há possibilidade,

Há cinquenta por cento,

Para o mal e para o bem,

Para o bom e para o mau,

Ex·pec·ta·ti·va,

Esperar por algo anunciado,

Esperança baseada em probabilidades ou promessas,

Estado de quem aguarda algo e julga provável sua conquista,

Situação incerta,

Que na maioria das vezes contamos como certa,

Expectativa: “A mãe da merda!”

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Felipe Hudson

Remediar…

Contamos nossos dias em cartelas de remédios,

Alguns para dormir,

Outros para suportar viver acordado,

Vitaminas, antigripais, antiácidos, ansiolíticos,

Drogas para períodos amáveis,

Drogas para períodos políticos,

Outros se viciam em religiões,

Alguns em promessas de sucesso,

Tem quem viva de forma liberal,

Buscando um idílico progresso,

Outros conservam seus preconceitos,

Um loop, um infinito retrocesso,

E no caminho para o trabalho,

Mais um comprimido e um café expresso,

A busca constante pelo regresso a juventude,

Uma dose de botox e a solidão disfarçada de solitude,

Sem atitude!

Tomamos outra dose em busca de reação,

Química, química e mais química,

Até que pare o coração!

E se voltar a funcionar…

Mais remédios!

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Felipe Hudson

Banco de madeira

Ela tem uma forma diferente de segurar o cigarro,

Como quem tem o domínio sobre o vício, sabe?

Fuma com a certeza de quem decide quando parar,

Sua tragada contrasta claramente com o descontrole emocional em suas relações amorosas,

Cercada por romances porosos e tramas de crochê mal desenhadas,

Joga a fumaça no ar como se joga nos braços de quem não lhe merece,

Se entrega em abraços fugazes,

Entrega-se de alma ao acaso,

E perde-se em uma paixão repentina e não correspondida,

Vaga pela história de sua própria vida,

Abandonando cigarros, sorrisos, bebida, carne vermelha,

Abandona o banco de madeira,

E parte em busca de algo que lhe traga aquela velha sensação,

A saudosa incerteza de um cigarro bem tragado!

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Felipe Hudson

Último abraço

Ao longo das últimas décadas buscamos isolamento,

Nos entregamos cegamente as tecnologias,

Cada um no seu devido quadrado,

Imploramos por espaço,

E hoje temos tudo que pedimos,

Conversamos em pequenos quadrados,

(Quando a tecnologia nos permite)

Seguimos isolados,

E agora reclamamos…

Apenas pelo isolamento não ser uma escolha própria,

Revoltados, furamos a quarentena alegando saudades,

Mais por vaidade de se dizer livres,

Ainda que escravizados pelo sistema e pela tecnologia,

Mas no fundo, isolados e distantes estamos há muito tempo,

Isolado, eu sequer me lembro do último abraço!

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Felipe Hudson

Férias e sonhos

Nosso amor é tão intenso,

Ainda que a sombra dos dias tristes,

Que fantasmas envelhecidos em meu olhar habitem,

Sinto o coração apertar quando vejo seu carro acelerar e partir,

Como se a cada metro um pedaço do meu coração estivesse jogado pelo asfalto,

Sinto aquele último riso alto invadir meu peito,

O acolhimento de um abraço apertado e a pressão contra seu peito,

Sinto o amor!

E ele me deixa aquecido até as próximas férias!

E só nos resta retornar as aulas,

E aprender a esquecer os sentimentos,

Desaprender a amar,

Para aprender a “viver”, como a sociedade nos diz que é a vida,

Cansativa, opressora e difícil de ser vivida,

Aprender que nosso romantismo é tolice,

Que talvez valha a pena a vigarice,

E que apenas o que tem valor monetário importa,

Todo resto são sonhos,

E sonhos não se compram,

E o que não se compra não tem valor em uma sociedade consumista!

Somo apenas românticos,

Com todos os nossos sentimentos e sonhos em uma feira de adoção,

E quem em meio a tanto egoísmo adotaria um coração?

Espero que em breve cheguem as férias…

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Felipe Hudson

Bambuzal

O vento me trouxe uma lembrança boa agora,

De quando tudo era calmaria,

Mas nada era monótono,

O vento trouxe aquele cheiro de mato, sabe?

Aquele perfume de natureza, que você não define se é rude ou suave,

Trouxe aquele cheiro de vida, de erva, de verdura colhida,

Afastou todo cansaço e me trouxe aquela momentânea alegria.

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Leveza, foi isso que o vento me trouxe,

Aquele despertar tranquilo, depois de uma boa noite de sono,

E essa brisa tem dono,

Esse vento foi um presente de minha mãe,

Porque ela é senhora dos ventos,

E não há de ver seu filho desesperançoso.

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Esse vento trouxe aquele afago,

Aquele carinho gostoso,

E as memórias boas,

Coisa de mãe!

Acarinhou seu filho em uma quarta-feira,

Para mostrar que meu carinho e minhas lembranças são recompensados,

Me fez lembrar de uma felicidade simples.

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Aqueceu meu coração com uma brisa fresca em meio ao sol,

O vento me cobriu como um fino lençol,

E me deu esperança!

E o que mais precisa uma criança,

Além de um abraço, um beijo de mãe e esperança?

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Felipe Hudson

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