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Poesias Periféricas

"Vozes da Periferia"

Categoria

VERSOS

Ikú

Nestes tempos a morte chega ruidosa,

Transpassa as famílias,

Dilacera corações,

Distancia corpos,

A morte deixa memórias que o tempo vai apagando,

Como a terra consome a matéria,

Como o descaso consome os homens.

Jacarezinho

Era uma via de mão dupla,

A polícia subia e o sangue descia,

Os sonhos pelas vielas escorriam,

O ar se extinguia, como nas UTIs, CTIs, CPIs,

Para o povo não existia EPI,

(Equipamento de Proteção Individual)

Não existe Proteção Social,

Nunca houve!

Eis o novo normal.

Dias nublados

Anos isolados em nossos corações gelados,

Distanciados dos abraços,

Por trabalhos escravizados,

Horas e horas em congestionamentos,

Congestionando sentimentos em nosso peito,

O cérebro no automático gerando crises de ansiedade,

Sufocados por prédios, contas e pela solidão das grandes cidades,

Guiados por vaidades,

Perdidos em dias nublados.

.

Os anos correram,

Os cabelos foram tingidos na tentativa de voltar no tempo,

Aplicações de botox buscando paralisar o momento,

O apelo a finasterida, buscando evitar a queda,

Tudo foi em vão!

E o pequeno vão que criamos tornou-se um abismo,

Nos afastamos, nos repelimos, nos agredimos,

E nossas recordações ensolaradas,

As viagens planejadas,

A fumaça dos churrascos cancelados,

Tudo se transformou em dias nublados.

.

Mas resta um fio de esperança,

Que reside na ventania,

Em Oyá onde minha fé se cria,

Que se aproxime como brisa,

E que eleve sua potência dia após dia,

Carregue as nuvens e os dias nublados e nos abençoe com amanheceres ensolarados,

Que a vida seja uma eterna quarta-feira,

O equilíbrio entre o cansaço e zoeira,

E que eu possa lhe oferecer uma vela,

E que ela queime,

Como um dia ensolarado!

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Felipe Hudson

Labirinto de Espelhos

Quando abrir os olhos nos trazia expectativas,

E ao fechar, os mesmos olhos, o coração não se enchia de melancolia,

Enquanto erámos felizes,

Vestidos de esperança e alimentados pelas promessas de prosperidade,

Que não sabíamos, mas eram como carboidrato,

Tinha fácil digestão, não saciava plenamente e depois se tornaria excremento,

Há quem conseguiu fazer disso esterco,

E de certa forma adubou a vida,

Mas a maioria despejou dejetos e fomos uns soterrando os outros com nossas frustrações e amarguras,

Os corações pesados e vilanizados foram nos jogando para baixo,

Até que ficamos de joelhos,

Cansados em um labirinto de espelhos,

Onde nem ao menos havia um Minotauro para nos estraçalhar,

Apenas caminhos repetidos,

Reflexos para nos perder como Narciso,

Perambulando sem destino,

Perplexos em nossa autoimagem,

Divagando sobre coragem, foco e meritocracia,

Perdidos em projetos por nós não projetados,

Caminhando guiados pelo mercado, o capital e o cansaço,

Matando a sede em piscinas de lágrimas,

Onde, por vezes, também nos afogávamos,

Não havia saída,

Não havia nada!

O lance é que nunca deveríamos atravessar aquela porta,

De todos os brinquedos deste parque,

Deveríamos evitar o labirinto, a casa de espelhos,

Ou qualquer brinquedo de perdição,

Que nos promete diversão em caminhos curtos,

Então,

Nos restaria apenas nos perder em nossa imaginação,

E isso por si só nos seria trabalhoso,

Mas quem sabe ao menos prazeroso,

Por agora, quero apenas fechar meus olhos,

Já me bastam os espelhos.

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Felipe Hudson

Divã

Quando o coração dilacera,

O som lhe invade a alma,

O fragmento de calma estilhaça,

A alma sai do corpo,

Por um momento olha o espectro branco e vazio,

Jogado ao chão,

Baleado pela verdade,

Com seu mundo de expectativas estilhaçado,

A verdade rasga o peito,

Como um soco no queixo,

Que chacoalha o cérebro e inibe qualquer raciocínio,

A realidade não sente pena,

Ela invade o coração e dilacera seu bem-estar,

É um mergulho no mal-estar,

Mas é busca por renovação,

O batismo,

Os sentidos atentos, as informações absorvidas,

O coração impactado, mas a possibilidade de vida,

A saída desejada,

O passeio no pântano para encontrar a luz,

A verdade é como sair de um quarto escuro e encontrar um dia ensolarado,

A luz invade os olhos, cega, causa mal-estar, mas depois tudo fica claro, nítido, saudável,

O alívio após a dor é quase melhor do que nunca sentir esse desconforto,

Não nos sentiremos heróis sem um dia nos sentirmos escrotos.

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Felipe Hudson

Expectativa

Expectar,

Esperar,

Esperança,

Possibilidade,

E onde há possibilidade,

Há cinquenta por cento,

Para o mal e para o bem,

Para o bom e para o mau,

Ex·pec·ta·ti·va,

Esperar por algo anunciado,

Esperança baseada em probabilidades ou promessas,

Estado de quem aguarda algo e julga provável sua conquista,

Situação incerta,

Que na maioria das vezes contamos como certa,

Expectativa: “A mãe da merda!”

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Felipe Hudson

Remediar…

Contamos nossos dias em cartelas de remédios,

Alguns para dormir,

Outros para suportar viver acordado,

Vitaminas, antigripais, antiácidos, ansiolíticos,

Drogas para períodos amáveis,

Drogas para períodos políticos,

Outros se viciam em religiões,

Alguns em promessas de sucesso,

Tem quem viva de forma liberal,

Buscando um idílico progresso,

Outros conservam seus preconceitos,

Um loop, um infinito retrocesso,

E no caminho para o trabalho,

Mais um comprimido e um café expresso,

A busca constante pelo regresso a juventude,

Uma dose de botox e a solidão disfarçada de solitude,

Sem atitude!

Tomamos outra dose em busca de reação,

Química, química e mais química,

Até que pare o coração!

E se voltar a funcionar…

Mais remédios!

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Felipe Hudson

Tolerância?

Nenhuma religião é ruim,

Mas não faz mal não ter religião,

Complicado é o fanatismo que congela o coração,

Venda os olhos e causa cegueira,

Empobrece o espírito e separa irmãos.

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Cristãos, espíritas e umbandistas,

Candomblecistas, muçulmanos e budistas,

Nenhum credo traz em si a divisão,

O egoísmo, a ganância e a ambição,

Propagam o desgosto e a contradição.

.

Existe religião ruim?

Ruim é ter religião?

Pior é ser ateu?

Não!

A intolerância, a violência e o fanatismo é o que está em questão!

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A intolerância já está errada no propósito de algo tolerar,

Invocar a tolerância é algo pesado sobre um fato que não lhe cabe julgar,

Tolerância não veste bem em uma festa onde o melhor vestido seria a empatia,

Quem sabe combinada com o respeito,

Então poderíamos livres de opressão,

Encher nosso peito de ar e de amor nosso coração,

E soltar um suspiro de alívio e um abraço de compaixão,

Poderíamos conviver e então viver!

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Felipe Hudson

Notas e memórias

Um beijo apenas,

É o que eu te peço nessa noite fria,

Preciso preencher o vazio do meu peito,

Coroar de flores minha trilha,

Preciso de algo mais do que estar sozinho,

Preciso seguir de mãos dadas este caminho.

.

Aceita meu convite,

Vive comigo uma tarde de domingo,

Afasta a melancolia do final do dia,

Faz da minha noite algo realmente fantástico,

Não permita que eu seja abraçado pelo sarcasmo,

Não me permita apenas esperar a segunda-feira,

Ver a vida passar por inteira.

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Olha nos meus olhos com aquele brilho,

Deixe que minha sorte esteja nas suas mãos,

Que nossas linhas da vida se cruzem,

Que possamos driblar a morte,

Ou que morramos abraçados,

Mas que nossos corpos se completem.

.

Não sejamos notas e memórias,

Que nossa história seja completa em um dia,

Uma seresta,

Livra-me da sociedade funesta,

Venha comigo e proteste!

Não aceitemos o deserto de ódio,

Nem o silêncio entre os prédios.

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Felipe Hudson

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