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Poesias Periféricas

"Vozes da Periferia"

Dias somados

Este desenvolvimento,

Esta metamorfose diária é tão intensa,

Não faz muito tempo, o frio me agradava,

Me divertia com a fumaça que saia da minha boca,

Com as pontas dos dedos roxos,

Com o cobertor pesado na hora de dormir,

Mas bastou os anos passarem,

Bastou refletir e sentir,

E desejei o frio bem longe de mim…

Em outros momentos,

Me diverti tomando sustos,

Assistindo filmes repletos de sangue e roteiros previsíveis e por vezes mal escritos,

Algumas vezes fingi gostar de noites mal dormidas,

Mas hoje não as suporto,

Tão pouco os filmes de terror e a violência neles expressa!

Talvez o frio também me violente e isso me fez desgostar,

Esse monte de roupas prendendo os movimentos,

Partes do corpo geladas e o coração lutando por aquecê-las,

Acredito que seja isso…

Como a noite,

Que por anos me embalou em seu feitiço, mas que hoje não me encanta,

Me encantam mais os dias de sol,

Temperaturas amenas,

Vida amena,

Pequenos prazeres,

Me encanta sorrir e poder viver em liberdade,

Ainda que o regime seja semiaberto,

Assim como disse Foucault,

Que sempre exista um vigia por perto,

Mesmo assim,

Me agradam os dias somados!

Mesmo somados em regime semiaberto!

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Felipe Hudson

Sobre o ódio aos homens e a orientação para amá-los!

Vivo essa relação com a política,

Odeio os políticos!

Mas gosto de me relacionar com a política,

E os políticos se parecem bastante com boa parte de nós homens,

Prometemos mais do que entregamos,

Somos imaturos e inseguros,

Em grande parte, mimados!

Nos vangloriaríamos de coisas que muitas vezes não fizemos,

Ou pior, nos vangloriamos de atos que seriam nossas obrigações,

Cobramos aplausos por obras mal feitas e geralmente entregues com atraso.

Somos fracos,

Geralmente vivemos coligados,

Aliados a partidos ou amigos que não nos levam a melhorias efetivas,

Visamos apenas pequenas e passageiras conquistas,

Crescemos extremamente inseguros em nossa masculinidade,

Repletos de vaidade,

Crescemos investindo em tênis caros e motivos para andar descamisados,

Na vida adulta adicionamos os carros,

E estes variam de tamanho, potência e altura do som, proporcionalmente ao número de vezes que brochamos,

Ou inversamente proporcional ao tamanho que disseram que deveria ser o nosso pau!

Pau? Até o apelido vai mal…

Camuflamos nossos desvios de conduta em discursos inflamados sobre honestidade,

Juramos lealdade,

Projetamos unidade,

Mas entregamos apenas uma eterna adolescência sentimental,

Rasa, imatura e imoral,

Se ainda houvesse rompantes adolescentes na esfera sexual…

Mas nessa também reina a promessa,

Pedagogicamente aprendida em vídeos curtos,

Que assistimos escondidos,

Camuflando o adolescente inseguro na máscara de adulto astuto e bem sucedido,

E como políticos…

Sem perceber, somos sucedidos, dia após dia por nosso machismo,

Superados pelo egoísmo e substituídos por qualquer coisa que proporcione o mínimo prazer sem o revés da decepção passados cinco minutos,

Assim como a política…

Aposto em um político e antes do segundo turno já confirmo tratar-se de um corrupto,

E tem-se o fim abrupto e então me questiono,

“Por que diabos eu gosto de política?”

E cada vez mais cansado e desanimado acompanho o surgimento de um novo nome em quem apostar,

E baixinho repito,

“Vou arriscar mais uma vez, mas só dessa vez!”

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Felipe Hudson

“Montevideo”

Quando estou em Montevidéu,

Estou em casa,

Caminho pelas calçadas largas,

Me sinto abraçado pela brisa contínua que vem do Prata,

A “Rambla” extensa me traz paz,

Seja em uma tarde ensolarada ou em um dia chuvoso de inverno,

Nunca me senti só quando estava em Montevidéu,

Tenho a plena certeza que lá não nasci por puro deslize,

Talvez tenha sido jogado dos céus,

Como jogamos o “garoto amarelo” no mapa do Google,

E por puro descuido,

Acabei por cair mais para cá,

Poderia ter sido mais para lá,

E estaria sentado na “Plaza Matríz” acompanhado de um “cortado” e uma “medialuna”,

Quem sabe torceria para o Nacional? Quem sabe para o Peñarol?

Vestiria a Celeste com um orgulho nato e com a esperança do ressurgimento,

Valorizaria minhas cores e não as entregaria em avenidas com injusto lamentos,

Usaria lindos uniformes escolares, conheceria mais sobre a América Latina e sentiria orgulho de minha latinidade,

Tomaria erva-mate e chimarrão sentado na porta de casa,

Veria alguns cachorros passeando pela cidade, livres!

Comeria alguns “chivitos”, muitas “parrilladas” e “alfajores”,

E seria feliz em longas caminhadas pelas ruas planas e largas!

Fecho esse poema me desculpando pelo simples olhar sobre a cidade,

Foram apenas alguns lindos dias em duas visitas,

Nada mais,

Mas poderia ter sido uma vida!

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Felipe Hudson

Da Quarentena: E agora Jair?

Se na quarentena,

Que pena,

Já perdemos centenas,

Vidas sentidas pelas lágrimas escorridas,

Imagina se seguíssemos essa tática suicida,

Deste velho genocida,

Que se acha jovem em suas flexões de pescoço malconduzidas,

Assim como malconduzida é sua própria vida,

Sem controle de seus filhos, milicianos, corruptos, e quem sabe homicidas,

Cercado por um pasto de incompetentes,

Que cresce como capim em terra boa,

Por ele escolhidos de forma à toa,

Ou em troca da sua coroa,

Que julgava ser de rei,

Mesmo conseguida na sorte,

Não entendeu ser apenas o bobo da corte,

Natimorto,

Nascido programado para morte,

Como o palhaço tolo que nunca teve talento,

Que morreu ao relento com suas piadas sem nexo,

Em descompasso com a vida,

Perplexo! Olhando em um rio poluído seu reflexo,

Apagado em meio as fezes,

Dependendo de preces pagas para deuses corruptos,

Movidos a dízimos e sem escrúpulos,

Que o abandonarão no primeiro sinal de falência,

E voltarão aos postos de urubus,

Aguardando ver o reles soldado cair,

Como carniça,

E simplesmente dirão,

E agora Jair?

 

 

Felipe Hudson

Grandes Cidades

O que fazer quando os caminhos são sempre diversos?

Onde vivemos dispersos em amores parcos,

Como viver sem uma única reta, uma única escolha certa que me poupe das crises de ansiedade?

Como sobreviver às grandes cidades?

Como se sentir à vontade estando perdido, oprimido?

Reprimido por ruas estreitas e grandes labirintos.

Não tenho certeza se a felicidade existe,

Nem mesmo em “uma trilha estreita em meio a selva triste”,

Talvez ela simplesmente não exista!

Talvez seja a vida um simples joguinho de encontrar caminhos, como aqueles que fazíamos nas revistas!

“Leve a Chapeuzinho até a casa da vovozinha”,

“Escolha o melhor caminho”,

E sempre haverá um lobo mau,

Sempre haverá um outro final,

Diferente do contado por seus pais,

A vida é mais para Irmãos Grimm,

Noventa por cento bebe cachaça fingindo que faz parte da turma que toma gim,

Sempre foi assim e sempre será,

Não adianta pensar que o “coronavírus” igualará,

A conta será sempre cara,

E serão sempre os 90% que irão pagar.

 

 

Felipe Hudson

A assembleia contra o povo!

Borracha para apagar,

Borracha para aprender,

Borracha para ensinar,

“Borrachada” é o que o Estado tem pra você!

Borracha não vai apagar o trauma em receber, porrada, esculacho e gás na cara sem merecer.

Uniforme na escola não chega,

Uniforme do aluno apertado,

Uniforme da polícia capuz e contra professores carros blindados!

Professores são arrastados,

Tomados por violência,

Baixos salários e o ódio instigado,

Desse jeito não há paciência!

59 deputados,

Não representam os pobres e suados,

32 tentaram, mas foram calados!

91 deputados de nós dependem, mas só durante as eleições,

Depois é bala de borracha e portas fechadas para o povão,

Espera mais quatros anos para votar errado e não aprender a lição,

Não entendem a qual classe econômica pertence grande parte da população,

Rico não usa sus,

Polícia de rico não usa capuz,

Rico não usa previdência,

Rico não tem penitência,

Rico sonega imposto e fundo de garantia dos empregados,

Rico não tem consciência,

Rico não usa escola pública,

Rico não tem paciência para funcionário adoentado,

Rico quer ver pobre morto ou escravizado,

Rico não tem inocência!

Tem pobre que pensa ser rico,

Mas pobre nunca rico será,

Para saber se você é rico,

Pergunte se tem que trabalhar!

 

 

 

Felipe Hudson

O rei do gado

O gado caminha no pasto,

Pensamento gasto,

Procura por mais grama,

Se inflama,

Esquece quem plantou o pasto que lhe alimenta,

Procura apenas por mais comida,

Não se contenta,

Não utiliza sua massa cinzenta,

Apenas lamenta,

E brada pela cidade:

“Quem aqui deseja liberdade?

Queremos apenas comer muito e dormir tranquilos!

No cercado construído pelo frigorífico.

Que magnifíco!”

O gado tem vaidade,

Pouca ou nenhuma memória,

É verdade!

Mas muita vaidade!

O gado caminha no pasto,

Caminha descalço ou de “louboutin”,

Caminha como se fosse a única mente sã,

Embora na realidade esteja infectada,

Dominada pela soberba e intolerância,

Como combustível se abastece de ganância,

Mesclada com pouca cultura,

Na vida mansa ou dura,

Despreza a educação e também menospreza a cultura,

Sonha com uma vida com muita grama e fartura,

Acredita em promessas, é reacionário, e adora uma fatura,

Visualiza como inimigos os que pensam o contrário,

Se orgulha de ser parte do eleitorado,

Não percebe seu papel de otário,

De chamar de mito quem antes era apenas mais um rato,

E agora ou alçaram a rei,

O rei do gado!

 

 

Felipe Hudson

Kit Escolar

Para todo lado que olho é porrada,

O soco vem na cara,

Na certeza da impunidade,

Vem na maldade, junto com o mata leão que me sufoca,

Como se na periferia não fossemos sufocados desde o parto,

Que tem tudo pra dar errado em um hospital todo quebrado, lotado,

Com servidores mal pagos e maltratados pelo Estado,

Por sinal, pensa em um cara pós-graduado em maldade é esse tal de Estado,

Governado para vitimar o pobre, e para deixar pior a vida do descamisado,

Deixa órfão o menino carente,

Mata pai em mãe baleados,

E o presente do menino também já está reservado,

Quando entrar com a mochila na escola ganha como regalo um grande soco na cara,

Ganha também joelhada, rasteira, e tudo que tiver direito,

Esse é o kit escolar do governador e também do prefeito,

É tapa na cara e murro no peito,

Espancamento regado a pedidos de respeito,

Gás de pimenta, cacetes e despeito,

E pensar que a maioria dos que agridem também vieram desse gueto,

Triste fim esquecer-se do passado,

Um Alzheimer terrível que abala a segurança do Estado,

A cada dia mais jovens vitimados,

A cada dia o Estado abandonado,

A cada viagem dos governantes um bairro alagado,

A cada professor que desiste um caixão é enterrado!

A cada agressão mais um cidadão periférico revoltado!

E o barril de pólvora só cresce!

 

 

Felipe Hudson

Deveras Corrompido

Temos um senso de justiça corrompido,

Atropelamos nossos amigos,

Nos espelhando nos inimigos,

Nossa justiça contra a corrupção é chegarmos ao poder para roubar mais que o antecessor,

Ao invés de a corrupção cessar tentamos roubar o máximo que pudermos para compensar quem nos roubou,

E quem no poder nunca chegar se sentirá prejudicado,

Não por não ter capacidade de mudar a desigualdade,

Mas por nunca ter roubado,

Se sentirá novamente prejudicado,

Duplamente,

Uma vez por não ser beneficiado,

Outra por não ter roubado,

Essa é a roda da fortuna de um povo desumanizado,

Que se acha superior quando doa roupas velhas para um povo descamisado,

Mas que usurpa o direito do mesmo povo através da desigualdade instituída,

Choram pela desigualdade em um filme coreano,

Saem da sessão em prantos,

Mas retornam para casa observando se ficou alguma sujeira pelos cantos,

E só não trancam sua empregada no porão por um único motivo,

Sua casa só tem dois ou três cômodos,

Mas mesmo assim se acham ricos,

Tem receio de sua diarista,

Querem explora-la por mais de dois dias,

Mas tem medo de processo trabalhista,

E comemoram o fim da CLT e dos poucos direitos duramente adquiridos,

Mas quando chegam no trabalho na segunda-feira rezam para não serem os próximos da lista,

Cometem um suicídio atrás do outro,

Comemorando a demissão alheia morrendo de medo de serem demitidos,

Perseguem por medo de serem perseguidos,

Temos um senso de justiça próprio,

Mas temos um senso de justiça deveras corrompido!

 

 

Felipe Hudson

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