Busca

Poesias Periféricas

"Vozes da Periferia"

O fim

Então um dia decidi parar de escrever,

Da mesma forma como comecei,

Do nada,

Sem motivações, expectativas e utilizando apenas as frustrações,

Um dia me despedi das palavras,

Despedi das emoções e incertezas,

Perdi o ritmo, a destreza,

Me entreguei a clareza da rotina,

Um dia cansei da corrida,

Da busca,

Cansei da escrita,

Um dia cansei do meu sonho,

Se é que um dia o tive,

Se no fim tive expectativas,

Que é a mãe da merda,

Como me disseram um dia,

Um dia cansei de mim!

E foi assim,

E fui assim,

E foi meu fim!

 

 

Felipe Hudson

Pobres

Éramos todos pobres!

Mas fingíamos que não éramos,

Gostávamos de nos achar ricos por ter a vida repleta de parcelas,

Claro que uns tinham dificuldades maiores que os outros,

Mas ninguém podia deixar de trabalhar se quisesse manter em pé este corpo.

 

Éramos todos pobres!

Policiais, professores, enfermeiros, microempresários e funkeiros,

Éramos todos pobres, mais da metade dos trabalhadores brasileiros,

Éramos todos pobres e vivendo a mesma situação,

E então, para evitar confusão atribuíram títulos e formaram as divisões,

Surgiram classes, estatísticas, porcentagens e o pobre virou classe média com um tostão!

 

Extrema pobreza, pobre, classe média baixa, classe média, classe média alta, rico, milionário,

Um milhão de divisões para nos fazer de otários!

Criaram separações e então não éramos mais pobres, ainda que o almoço fosse arroz e bofe,

Surgiu a ilusão de que se tornaria rico quem tivesse mais prestação,

Carro, apartamento, celular e guarda-roupa financiados te livrariam da rotulação.

“ Ser pobre? Deus me livre, eu compro tudo no cartão! ”

 

Por trás da fantasia era clara a situação,

Era pobre matando pobre não se sentiam mais irmãos,

Os realmente ricos eram grão de areia na população,

Mas dominavam todo mercado financeiro e os meios de produção,

E pobre era todo aquele que trabalhava e era vítima de exploração,

Não percebiam que o rico vive de rendimentos e não possui calos nas mãos,

Quer para ele todos os lucros e não concorda com distribuição.

 

Éramos todos pobres e quase todos sem percepção,

Não entendíamos as manobras do mercado e descontávamos no próximo nossa frustração,

E como próximo dos pobres só haveriam pobres e os ricos estariam em segurança em sua mansão,

Éramos pobres matando pobres,

Éramos irmãos matando irmãos!

.

.

.

Felipe Hudson

8 de dezembro de 2019

O rebaixamento do Cruzeiro nos permite refletir sobre a situação do país. Tal qual o Brasil o time do Cruzeiro sofreu ao longo deste ano com uma gestão deplorável, envolvida em escândalos, suspeitas de crimes, e total inabilidade para comandar a equipe. Muitos torcedores insistiram no discurso do “time grande não cai”, cegos em relação a condição do time. Não acreditando que após anos de conquistas o rebaixamento seria o seu destino seguiram firmes em sua ignorância. Assim como muitos brasileiros, parte dos torcedores fecharam seus olhos para o óbvio, para o fato que o caminho seguido os levaria ao precipício. Hoje o Cruzeiro provou o sabor do rebaixamento, assim como Fluminense, Botafogo, Vasco, Palmeiras, Grêmio, Corinthians, Internacional e Atlético um dia provaram, e mais uma vez foi derrubada a máxima do “time grande não cai”, caiu, assim como nosso país também cairá se continuar nesse caminho incerto, com um governo patético e arrogante. E talvez quando quebrarmos o país, seja por inércia ou por participação nesse delírio, indignados cometeremos as mesmas violências cometidas pela torcida no fim do jogo, com consequências ainda maiores, mas só nos restará a segunda divisão da política mundial ou talvez a terceira.

Sem nós

Não vai dar certo,

Não te ter aqui bem perto,

Não saberei ao certo,

Se faço a curva ou sigo reto,

A caminhada será dura,

Não haverá pecadora tão pura, que esteja a sua altura,

Um resfriado será como uma doença sem cura,

Não terei sua companhia em noites escuras,

Me sobrará apenas a televisão,

Baixa, brilhante e incomoda,

Com quem dividirei minha cômoda?

Não terei com quem trocar minhas roupas,

Não sentirei vontade de beijar outras bocas,

Não terei em meu ouvido sua voz tão rouca,

Não lavaremos juntas nossas roupas e louças,

Não brincaremos mais de enfermeiras e aeromoças,

Não seremos cobradas por estarmos fora dos padrões,

Não sofreremos juntas os preconceitos e agressões,

Não estaremos unidas contra os machões,

Não passearemos pela Paulista ouvindo os gritos de “sapatões”,

Não existe você sem nós,

Não existo sem nós,

Nossas vidas foram atadas em nós,

E ainda que em meio a nossa separação eu só consiga ver os contras e nunca os prós,

Às vezes me pergunto, por onde anda o tal Queiróz?

Como combaterei sozinha um governo atroz?

Como será ouvido meu grito único sem a sua voz?

Como xingarei meu algoz?

Como viver sem nós?

Contudo

A necessidade de cavar sempre mais dez centímetros me mantém vivo,

Porém essa mesma necessidade acabará me exaurindo,

A curiosidade e a expectativa em encontrar algo de valor me faz insistir com a pá e a picareta,

Mas a decepção diária, o vazio ao fim de cada dia, me faz quase desistir de tudo,

Contudo,

Ainda possuo a curiosidade,

E quem diria seria esse o meu motor de verdade?

A mentira!

Ou a ironia de buscar tudo, todos os dias, enquanto não encontro nada!

.

.

.

Felipe Hudson

Sexta-feira

Costumava ver rostos alegres em uma sexta-feira,

Ônibus lotado em meio a suadeira,

Perspectiva de curtir a noite inteira,

A esperança guardada em um céu cheio de estrelas,

A caminhada era dura, mas regada a cerveja parecia mais leve,

Todos sabiam o que esperar no fim de uma sexta-feira,

O dia parecia algo breve,

Um preparatório para a felicidade,

Era sexta-feira em todo canto da cidade,

Não havia menor possibilidade de chorar,

Não havia um único rosto desanimado,

O rádio ligado,

Os olhos brilhavam e a cabeça viajava,

Tinha vida nas veias, sabe?

Aquela paz misturada com desassossego,

Não havia medo!

O frio na barriga não era mau presságio,

Não importava o preço do pedágio,

Atravessaríamos a cidade,

Nessa época nem era doença sentir ansiedade,

Nem era um pecado mortal nossas pequenas vaidades,

Mas hoje não!

Hoje vejo rostos tristes,

Parece que a galera acordou e comeu um prato de alpiste,

Presos em gaiolas,

Não sabem se realmente existem,

Aos menores resfriados não resistem,

Ou se entregam,

Como quem quer morrer,

Como quem se esforça para viver,

Não querem esperar a próxima sexta-feira,

Muitos não param para pensar,

Mas se parassem sentiriam falta da suadeira,

Da ressaca, da caganeira, da derradeira,

Da última, a saideira,

Sentiriam falta de sorrir,

De abraçar, de se despir,

Sentiriam falta da liberdade,

Da paz interior,

De sentir aquela paixão semanal,

O maior amor da vida a cada saída,

Sentiriam falta de ser mais inútil,

Sentiriam falta da sexta-feira e não do quinto dia útil,

Desejariam viver e não só sobreviver,

Aproveitar cada dia e não contar os dias para morrer!

Sentiriam saudade de pensar:

Sextou! O que vai ser?

.

.

.

Felipe Hudson

Presente

Caminhei no passado,

Caminhei hoje pela manhã,

O passado foi quando escrevi “caminhei no passado”,

O passado ficou antes dessa vírgula,

O tempo foge apressado,

A cada passo o chão não será mais pisado,

Aquele grão de areia não será mais arrastado,

A cada encruzilhada um trabalho foi deixado,

O despacho é passado,

O sinal da cruz na porta da igreja é passado,

É passado o dízimo ontem depositado,

O beijo demorado já é passado,

O abraço,

A companhia antes de estar desacompanhado,

Tudo é passado!

Recordar é passado,

E o que interessa é como você sente o passado,

Quanta saudade tem do passado,

O quanto de paz lhe traz seu passado?

O quando você gostaria de repisar seu traçado,

O quanto você planejou seu futuro para que seja belo seu passado?

O quanto você vive seu presente?

O passado do presente depende,

Assim como depende do futuro,

O passado é o todo,

O passado é o resultado, não o futuro!

E se tudo der certo o passado estará presente,

Sempre!

.

.

.

Felipe Hudson

Amores e dissabores

Aqui como em um conto de fadas não faltam fadas, mas também não faltam bruxas,

Na busca por amor nos contentamos com promessas esdrúxulas,

Acreditamos que podemos passar ilesos,

Leves por uma vida repleta de vitórias,

Esperamos ansiosos pelas glórias,

Pelos prazeres, mas desejamos que seja sem calos, engasgos, entalos,

Queremos no fim da corrida estarmos perfumados, penteados, felizes,

Esquecemos que mesmo nos contos de fadas não existem monólogos e protagonismos,

Existem bruxas, magias, tropeços, recomeços, novos tropeços, novos recomeços,

Uma mescla de acontecimentos, amores, dissabores,

Momentos de esgotamento e períodos redentores,

Invertem-se os papéis, somos fadas, somos bruxas,

Somos luz e escuridão,

Damos e pedimos uma mão,

Porque a vida é só um conto,

Não de fadas, nem de fodas,

É só um conto,

Apenas momentos e um turbilhão de sentimentos.

.

.

.

Felipe Hudson

Areia Branca

A escuridão cobre a areia branca,

Soterra o amor e as lembranças,

Contamina as marcas dos pés deixadas na areia,

Se espalha como um vírus correndo pelas veias,

O óleo avança por onde alcançam meus olhos,

Os animais padecem perante um novo desastre,

Se entregam calados após lutarem por suas vidas,

Encobertos na lama preta,

Calados como nossos governantes,

Abandonados pelas autoridades,

Políticos com diplomas acumulados em suas estantes,

Salas infestadas de vaidades,

Mas pouco amor no coração,

Viram as costas para tragédia,

Utilizam o momento como palco para acusação,

Não se preocupam em limpar os oceanos,

Estão acostumados a conviver com uma vida manchada,

Históricos de corrupção, acordos com milícias, cargos de fachada,

Atolam a natureza em dejetos,

Porque viver em meio ao lixo lhes parece certo,

Lhes ofende um único dia serem chamados de honestos,

Gostam de um país funesto,

Sem perspectiva de futuro,

Incerto,

Não suportam a clareza,

Não suportam que tenhamos uma vida branda,

Que possamos deitar em areia branca e sonhar,

Querem nos tomar tudo,

Florestas, praias, escola, estudo,

Querem nos tomar o mundo!

Querem nos manter no submundo!

Querem chamar aposentados de vagabundo!

Querem entregar a Amazônia,

Querem nos deixar com insônia,

Querem nos impedir de sonhar,

E nem em sonhos teremos esperança,

E nem em sonhos pisaremos na areia branca,

Nem em sonhos!

.

.

.

Felipe Hudson

Blog no WordPress.com.

Acima ↑