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Poesias Periféricas

"Vozes da Periferia"

O rei do gado

O gado caminha no pasto,

Pensamento gasto,

Procura por mais grama,

Se inflama,

Esquece quem plantou o pasto que lhe alimenta,

Procura apenas por mais comida,

Não se contenta,

Não utiliza sua massa cinzenta,

Apenas lamenta,

E brada pela cidade:

“Quem aqui deseja liberdade?

Queremos apenas comer muito e dormir tranquilos!

No cercado construído pelo frigorífico.

Que magnifíco!”

O gado tem vaidade,

Pouca ou nenhuma memória,

É verdade!

Mas muita vaidade!

O gado caminha no pasto,

Caminha descalço ou de “louboutin”,

Caminha como se fosse a única mente sã,

Embora na realidade esteja infectada,

Dominada pela soberba e intolerância,

Como combustível se abastece de ganância,

Mesclada com pouca cultura,

Na vida mansa ou dura,

Despreza a educação e também menospreza a cultura,

Sonha com uma vida com muita grama e fartura,

Acredita em promessas, é reacionário, e adora uma fatura,

Visualiza como inimigos os que pensam o contrário,

Se orgulha de ser parte do eleitorado,

Não percebe seu papel de otário,

De chamar de mito quem antes era apenas mais um rato,

E agora ou alçaram a rei,

O rei do gado!

 

 

Felipe Hudson

Kit Escolar

Para todo lado que olho é porrada,

O soco vem na cara,

Na certeza da impunidade,

Vem na maldade, junto com o mata leão que me sufoca,

Como se na periferia não fossemos sufocados desde o parto,

Que tem tudo pra dar errado em um hospital todo quebrado, lotado,

Com servidores mal pagos e maltratados pelo Estado,

Por sinal, pensa em um cara pós-graduado em maldade é esse tal de Estado,

Governado para vitimar o pobre, e para deixar pior a vida do descamisado,

Deixa órfão o menino carente,

Mata pai em mãe baleados,

E o presente do menino também já está reservado,

Quando entrar com a mochila na escola ganha como regalo um grande soco na cara,

Ganha também joelhada, rasteira, e tudo que tiver direito,

Esse é o kit escolar do governador e também do prefeito,

É tapa na cara e murro no peito,

Espancamento regado a pedidos de respeito,

Gás de pimenta, cacetes e despeito,

E pensar que a maioria dos que agridem também vieram desse gueto,

Triste fim esquecer-se do passado,

Um Alzheimer terrível que abala a segurança do Estado,

A cada dia mais jovens vitimados,

A cada dia o Estado abandonado,

A cada viagem dos governantes um bairro alagado,

A cada professor que desiste um caixão é enterrado!

A cada agressão mais um cidadão periférico revoltado!

E o barril de pólvora só cresce!

 

 

Felipe Hudson

Deveras Corrompido

Temos um senso de justiça corrompido,

Atropelamos nossos amigos,

Nos espelhando nos inimigos,

Nossa justiça contra a corrupção é chegarmos ao poder para roubar mais que o antecessor,

Ao invés de a corrupção cessar tentamos roubar o máximo que pudermos para compensar quem nos roubou,

E quem no poder nunca chegar se sentirá prejudicado,

Não por não ter capacidade de mudar a desigualdade,

Mas por nunca ter roubado,

Se sentirá novamente prejudicado,

Duplamente,

Uma vez por não ser beneficiado,

Outra por não ter roubado,

Essa é a roda da fortuna de um povo desumanizado,

Que se acha superior quando doa roupas velhas para um povo descamisado,

Mas que usurpa o direito do mesmo povo através da desigualdade instituída,

Choram pela desigualdade em um filme coreano,

Saem da sessão em prantos,

Mas retornam para casa observando se ficou alguma sujeira pelos cantos,

E só não trancam sua empregada no porão por um único motivo,

Sua casa só tem dois ou três cômodos,

Mas mesmo assim se acham ricos,

Tem receio de sua diarista,

Querem explora-la por mais de dois dias,

Mas tem medo de processo trabalhista,

E comemoram o fim da CLT e dos poucos direitos duramente adquiridos,

Mas quando chegam no trabalho na segunda-feira rezam para não serem os próximos da lista,

Cometem um suicídio atrás do outro,

Comemorando a demissão alheia morrendo de medo de serem demitidos,

Perseguem por medo de serem perseguidos,

Temos um senso de justiça próprio,

Mas temos um senso de justiça deveras corrompido!

 

 

Felipe Hudson

O fim

Então um dia decidi parar de escrever,

Da mesma forma como comecei,

Do nada,

Sem motivações, expectativas e utilizando apenas as frustrações,

Um dia me despedi das palavras,

Despedi das emoções e incertezas,

Perdi o ritmo, a destreza,

Me entreguei a clareza da rotina,

Um dia cansei da corrida,

Da busca,

Cansei da escrita,

Um dia cansei do meu sonho,

Se é que um dia o tive,

Se no fim tive expectativas,

Que é a mãe da merda,

Como me disseram um dia,

Um dia cansei de mim!

E foi assim,

E fui assim,

E foi meu fim!

 

 

Felipe Hudson

Pobres

Éramos todos pobres!

Mas fingíamos que não éramos,

Gostávamos de nos achar ricos por ter a vida repleta de parcelas,

Claro que uns tinham dificuldades maiores que os outros,

Mas ninguém podia deixar de trabalhar se quisesse manter em pé este corpo.

 

Éramos todos pobres!

Policiais, professores, enfermeiros, microempresários e funkeiros,

Éramos todos pobres, mais da metade dos trabalhadores brasileiros,

Éramos todos pobres e vivendo a mesma situação,

E então, para evitar confusão atribuíram títulos e formaram as divisões,

Surgiram classes, estatísticas, porcentagens e o pobre virou classe média com um tostão!

 

Extrema pobreza, pobre, classe média baixa, classe média, classe média alta, rico, milionário,

Um milhão de divisões para nos fazer de otários!

Criaram separações e então não éramos mais pobres, ainda que o almoço fosse arroz e bofe,

Surgiu a ilusão de que se tornaria rico quem tivesse mais prestação,

Carro, apartamento, celular e guarda-roupa financiados te livrariam da rotulação.

“ Ser pobre? Deus me livre, eu compro tudo no cartão! ”

 

Por trás da fantasia era clara a situação,

Era pobre matando pobre não se sentiam mais irmãos,

Os realmente ricos eram grão de areia na população,

Mas dominavam todo mercado financeiro e os meios de produção,

E pobre era todo aquele que trabalhava e era vítima de exploração,

Não percebiam que o rico vive de rendimentos e não possui calos nas mãos,

Quer para ele todos os lucros e não concorda com distribuição.

 

Éramos todos pobres e quase todos sem percepção,

Não entendíamos as manobras do mercado e descontávamos no próximo nossa frustração,

E como próximo dos pobres só haveriam pobres e os ricos estariam em segurança em sua mansão,

Éramos pobres matando pobres,

Éramos irmãos matando irmãos!

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Felipe Hudson

8 de dezembro de 2019

O rebaixamento do Cruzeiro nos permite refletir sobre a situação do país. Tal qual o Brasil o time do Cruzeiro sofreu ao longo deste ano com uma gestão deplorável, envolvida em escândalos, suspeitas de crimes, e total inabilidade para comandar a equipe. Muitos torcedores insistiram no discurso do “time grande não cai”, cegos em relação a condição do time. Não acreditando que após anos de conquistas o rebaixamento seria o seu destino seguiram firmes em sua ignorância. Assim como muitos brasileiros, parte dos torcedores fecharam seus olhos para o óbvio, para o fato que o caminho seguido os levaria ao precipício. Hoje o Cruzeiro provou o sabor do rebaixamento, assim como Fluminense, Botafogo, Vasco, Palmeiras, Grêmio, Corinthians, Internacional e Atlético um dia provaram, e mais uma vez foi derrubada a máxima do “time grande não cai”, caiu, assim como nosso país também cairá se continuar nesse caminho incerto, com um governo patético e arrogante. E talvez quando quebrarmos o país, seja por inércia ou por participação nesse delírio, indignados cometeremos as mesmas violências cometidas pela torcida no fim do jogo, com consequências ainda maiores, mas só nos restará a segunda divisão da política mundial ou talvez a terceira.

Sem nós

Não vai dar certo,

Não te ter aqui bem perto,

Não saberei ao certo,

Se faço a curva ou sigo reto,

A caminhada será dura,

Não haverá pecadora tão pura, que esteja a sua altura,

Um resfriado será como uma doença sem cura,

Não terei sua companhia em noites escuras,

Me sobrará apenas a televisão,

Baixa, brilhante e incomoda,

Com quem dividirei minha cômoda?

Não terei com quem trocar minhas roupas,

Não sentirei vontade de beijar outras bocas,

Não terei em meu ouvido sua voz tão rouca,

Não lavaremos juntas nossas roupas e louças,

Não brincaremos mais de enfermeiras e aeromoças,

Não seremos cobradas por estarmos fora dos padrões,

Não sofreremos juntas os preconceitos e agressões,

Não estaremos unidas contra os machões,

Não passearemos pela Paulista ouvindo os gritos de “sapatões”,

Não existe você sem nós,

Não existo sem nós,

Nossas vidas foram atadas em nós,

E ainda que em meio a nossa separação eu só consiga ver os contras e nunca os prós,

Às vezes me pergunto, por onde anda o tal Queiróz?

Como combaterei sozinha um governo atroz?

Como será ouvido meu grito único sem a sua voz?

Como xingarei meu algoz?

Como viver sem nós?

Contudo

A necessidade de cavar sempre mais dez centímetros me mantém vivo,

Porém essa mesma necessidade acabará me exaurindo,

A curiosidade e a expectativa em encontrar algo de valor me faz insistir com a pá e a picareta,

Mas a decepção diária, o vazio ao fim de cada dia, me faz quase desistir de tudo,

Contudo,

Ainda possuo a curiosidade,

E quem diria seria esse o meu motor de verdade?

A mentira!

Ou a ironia de buscar tudo, todos os dias, enquanto não encontro nada!

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Felipe Hudson

Sexta-feira

Costumava ver rostos alegres em uma sexta-feira,

Ônibus lotado em meio a suadeira,

Perspectiva de curtir a noite inteira,

A esperança guardada em um céu cheio de estrelas,

A caminhada era dura, mas regada a cerveja parecia mais leve,

Todos sabiam o que esperar no fim de uma sexta-feira,

O dia parecia algo breve,

Um preparatório para a felicidade,

Era sexta-feira em todo canto da cidade,

Não havia menor possibilidade de chorar,

Não havia um único rosto desanimado,

O rádio ligado,

Os olhos brilhavam e a cabeça viajava,

Tinha vida nas veias, sabe?

Aquela paz misturada com desassossego,

Não havia medo!

O frio na barriga não era mau presságio,

Não importava o preço do pedágio,

Atravessaríamos a cidade,

Nessa época nem era doença sentir ansiedade,

Nem era um pecado mortal nossas pequenas vaidades,

Mas hoje não!

Hoje vejo rostos tristes,

Parece que a galera acordou e comeu um prato de alpiste,

Presos em gaiolas,

Não sabem se realmente existem,

Aos menores resfriados não resistem,

Ou se entregam,

Como quem quer morrer,

Como quem se esforça para viver,

Não querem esperar a próxima sexta-feira,

Muitos não param para pensar,

Mas se parassem sentiriam falta da suadeira,

Da ressaca, da caganeira, da derradeira,

Da última, a saideira,

Sentiriam falta de sorrir,

De abraçar, de se despir,

Sentiriam falta da liberdade,

Da paz interior,

De sentir aquela paixão semanal,

O maior amor da vida a cada saída,

Sentiriam falta de ser mais inútil,

Sentiriam falta da sexta-feira e não do quinto dia útil,

Desejariam viver e não só sobreviver,

Aproveitar cada dia e não contar os dias para morrer!

Sentiriam saudade de pensar:

Sextou! O que vai ser?

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Felipe Hudson

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