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Poesias Periféricas

"Vozes da Periferia"

O fim

Então um dia decidi parar de escrever,

Da mesma forma como comecei,

Do nada,

Sem motivações, expectativas e utilizando apenas as frustrações,

Um dia me despedi das palavras,

Despedi das emoções e incertezas,

Perdi o ritmo, a destreza,

Me entreguei a clareza da rotina,

Um dia cansei da corrida,

Da busca,

Cansei da escrita,

Um dia cansei do meu sonho,

Se é que um dia o tive,

Se no fim tive expectativas,

Que é a mãe da merda,

Como me disseram um dia,

Um dia cansei de mim!

E foi assim,

E fui assim,

E foi meu fim!

 

 

Felipe Hudson

8 de dezembro de 2019

O rebaixamento do Cruzeiro nos permite refletir sobre a situação do país. Tal qual o Brasil o time do Cruzeiro sofreu ao longo deste ano com uma gestão deplorável, envolvida em escândalos, suspeitas de crimes, e total inabilidade para comandar a equipe. Muitos torcedores insistiram no discurso do “time grande não cai”, cegos em relação a condição do time. Não acreditando que após anos de conquistas o rebaixamento seria o seu destino seguiram firmes em sua ignorância. Assim como muitos brasileiros, parte dos torcedores fecharam seus olhos para o óbvio, para o fato que o caminho seguido os levaria ao precipício. Hoje o Cruzeiro provou o sabor do rebaixamento, assim como Fluminense, Botafogo, Vasco, Palmeiras, Grêmio, Corinthians, Internacional e Atlético um dia provaram, e mais uma vez foi derrubada a máxima do “time grande não cai”, caiu, assim como nosso país também cairá se continuar nesse caminho incerto, com um governo patético e arrogante. E talvez quando quebrarmos o país, seja por inércia ou por participação nesse delírio, indignados cometeremos as mesmas violências cometidas pela torcida no fim do jogo, com consequências ainda maiores, mas só nos restará a segunda divisão da política mundial ou talvez a terceira.

Sem nós

Não vai dar certo,

Não te ter aqui bem perto,

Não saberei ao certo,

Se faço a curva ou sigo reto,

A caminhada será dura,

Não haverá pecadora tão pura, que esteja a sua altura,

Um resfriado será como uma doença sem cura,

Não terei sua companhia em noites escuras,

Me sobrará apenas a televisão,

Baixa, brilhante e incomoda,

Com quem dividirei minha cômoda?

Não terei com quem trocar minhas roupas,

Não sentirei vontade de beijar outras bocas,

Não terei em meu ouvido sua voz tão rouca,

Não lavaremos juntas nossas roupas e louças,

Não brincaremos mais de enfermeiras e aeromoças,

Não seremos cobradas por estarmos fora dos padrões,

Não sofreremos juntas os preconceitos e agressões,

Não estaremos unidas contra os machões,

Não passearemos pela Paulista ouvindo os gritos de “sapatões”,

Não existe você sem nós,

Não existo sem nós,

Nossas vidas foram atadas em nós,

E ainda que em meio a nossa separação eu só consiga ver os contras e nunca os prós,

Às vezes me pergunto, por onde anda o tal Queiróz?

Como combaterei sozinha um governo atroz?

Como será ouvido meu grito único sem a sua voz?

Como xingarei meu algoz?

Como viver sem nós?

Contudo

A necessidade de cavar sempre mais dez centímetros me mantém vivo,

Porém essa mesma necessidade acabará me exaurindo,

A curiosidade e a expectativa em encontrar algo de valor me faz insistir com a pá e a picareta,

Mas a decepção diária, o vazio ao fim de cada dia, me faz quase desistir de tudo,

Contudo,

Ainda possuo a curiosidade,

E quem diria seria esse o meu motor de verdade?

A mentira!

Ou a ironia de buscar tudo, todos os dias, enquanto não encontro nada!

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Felipe Hudson

Sexta-feira

Costumava ver rostos alegres em uma sexta-feira,

Ônibus lotado em meio a suadeira,

Perspectiva de curtir a noite inteira,

A esperança guardada em um céu cheio de estrelas,

A caminhada era dura, mas regada a cerveja parecia mais leve,

Todos sabiam o que esperar no fim de uma sexta-feira,

O dia parecia algo breve,

Um preparatório para a felicidade,

Era sexta-feira em todo canto da cidade,

Não havia menor possibilidade de chorar,

Não havia um único rosto desanimado,

O rádio ligado,

Os olhos brilhavam e a cabeça viajava,

Tinha vida nas veias, sabe?

Aquela paz misturada com desassossego,

Não havia medo!

O frio na barriga não era mau presságio,

Não importava o preço do pedágio,

Atravessaríamos a cidade,

Nessa época nem era doença sentir ansiedade,

Nem era um pecado mortal nossas pequenas vaidades,

Mas hoje não!

Hoje vejo rostos tristes,

Parece que a galera acordou e comeu um prato de alpiste,

Presos em gaiolas,

Não sabem se realmente existem,

Aos menores resfriados não resistem,

Ou se entregam,

Como quem quer morrer,

Como quem se esforça para viver,

Não querem esperar a próxima sexta-feira,

Muitos não param para pensar,

Mas se parassem sentiriam falta da suadeira,

Da ressaca, da caganeira, da derradeira,

Da última, a saideira,

Sentiriam falta de sorrir,

De abraçar, de se despir,

Sentiriam falta da liberdade,

Da paz interior,

De sentir aquela paixão semanal,

O maior amor da vida a cada saída,

Sentiriam falta de ser mais inútil,

Sentiriam falta da sexta-feira e não do quinto dia útil,

Desejariam viver e não só sobreviver,

Aproveitar cada dia e não contar os dias para morrer!

Sentiriam saudade de pensar:

Sextou! O que vai ser?

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Felipe Hudson

Amores e dissabores

Aqui como em um conto de fadas não faltam fadas, mas também não faltam bruxas,

Na busca por amor nos contentamos com promessas esdrúxulas,

Acreditamos que podemos passar ilesos,

Leves por uma vida repleta de vitórias,

Esperamos ansiosos pelas glórias,

Pelos prazeres, mas desejamos que seja sem calos, engasgos, entalos,

Queremos no fim da corrida estarmos perfumados, penteados, felizes,

Esquecemos que mesmo nos contos de fadas não existem monólogos e protagonismos,

Existem bruxas, magias, tropeços, recomeços, novos tropeços, novos recomeços,

Uma mescla de acontecimentos, amores, dissabores,

Momentos de esgotamento e períodos redentores,

Invertem-se os papéis, somos fadas, somos bruxas,

Somos luz e escuridão,

Damos e pedimos uma mão,

Porque a vida é só um conto,

Não de fadas, nem de fodas,

É só um conto,

Apenas momentos e um turbilhão de sentimentos.

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Felipe Hudson

Areia Branca

A escuridão cobre a areia branca,

Soterra o amor e as lembranças,

Contamina as marcas dos pés deixadas na areia,

Se espalha como um vírus correndo pelas veias,

O óleo avança por onde alcançam meus olhos,

Os animais padecem perante um novo desastre,

Se entregam calados após lutarem por suas vidas,

Encobertos na lama preta,

Calados como nossos governantes,

Abandonados pelas autoridades,

Políticos com diplomas acumulados em suas estantes,

Salas infestadas de vaidades,

Mas pouco amor no coração,

Viram as costas para tragédia,

Utilizam o momento como palco para acusação,

Não se preocupam em limpar os oceanos,

Estão acostumados a conviver com uma vida manchada,

Históricos de corrupção, acordos com milícias, cargos de fachada,

Atolam a natureza em dejetos,

Porque viver em meio ao lixo lhes parece certo,

Lhes ofende um único dia serem chamados de honestos,

Gostam de um país funesto,

Sem perspectiva de futuro,

Incerto,

Não suportam a clareza,

Não suportam que tenhamos uma vida branda,

Que possamos deitar em areia branca e sonhar,

Querem nos tomar tudo,

Florestas, praias, escola, estudo,

Querem nos tomar o mundo!

Querem nos manter no submundo!

Querem chamar aposentados de vagabundo!

Querem entregar a Amazônia,

Querem nos deixar com insônia,

Querem nos impedir de sonhar,

E nem em sonhos teremos esperança,

E nem em sonhos pisaremos na areia branca,

Nem em sonhos!

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Felipe Hudson

Setembro Amarelo!

As vezes penso em morrer,

Não que eu realmente queira,

É por total inaptidão para a vida,

Sigo perdido em devaneios,

Ruas sem saída,

Desterro,

Abro meus olhos e estou vivendo o “feitiço do tempo”,

Todos os dias são o “dia da marmota”,

As mesmas frases,

A mesma rota,

Consigo prever os diálogos, as brigas, os pouco sorrisos,

Sensação de que não tenho tudo que preciso,

Mas o sentimento não é preciso,

O mesmo caminhar,

O mesmo calo o sapato aperta,

O mesmo bolso da mochila aberta,

A cadeira tem o mesmo defeito,

As costas doem do mesmo jeito,

O remédio faz, mas não faz efeito,

Nas madrugadas o ar é rarefeito,

As noites rivalizam com dias imperfeitos,

O caminhar é pesado,

Os quilômetros passam arrastados,

Assim como o ponteiro das horas,

Os dias passam arrastados desde os tempos da escola,

Ao mesmo tempo não se tem tempo para nada,

É uma vida arrastada!

Porém não posso deixa-la por nada,

Não há possibilidades de cometer tal devaneio,

Cercear minha vida no meio?

Ou no que acredito ser o meio,

Talvez ainda não esteja nem no meio,

Não creio que o melhor seja abandonar,

Não podemos deixar a ansiedade nos tomar,

A morte é a única certeza da vida,

Por que valeria a pena adiantar?

Por que permitiria meus dias a morte roubar?

Prefiro esperar,

Caminhar por esses dias,

Caminhar sem lugar,

Esperar para ver o que virá,

Como observador, como carcará,

Parado, tranquilo, esperando a hora de atacar,

Ou simplesmente livre para voar,

Precisamos urgentemente nos desconectar,

Da tecnologia desapegar,

Beijar, abraçar!

Precisamos viver!

O “dia da marmota” esquecer,

Existem outros filmes para ver,

Existe a possibilidade de viver,

Para o dia em que eu morrer,

Morrer com pena de deixar a vida,

Morrer achando que a estada foi pequena,

Morrer com a certeza de que valeu a pena!

Tudo!

Inclusive os momentos em que minha alma foi pequena!

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Felipe Hudson

Carroceiro

Corria com sua carroça,

Corria como quem tem pressa,

Olhos saltados,

Suor escorrendo pela testa,

Corria como se estivesse atrasado para festa,

“ Corria como quem não presta! ”

(Ouviram-se sussurros pelas frestas)

Corria como quem se atrasou para vida,

Olhar obstinado,

Sem tempo para troça,

Corria e puxava a carroça,

Corria como quem fugia da roça,

Corria como o filho pródigo,

Na ida e na volta,

Corria como quem tem o código para revolta,

Corria como o senhor da comunicação,

Entre Orum e Aiyê,

Corria como quem tem um recado para trazer,

Corria até o esgotamento,

Corria como quem corre do sofrimento,

Corria como um fugitivo,

Corria como se pela vida fosse perseguido,

Corria o carroceiro,

Talvez corresse pela vida, talvez por dinheiro,

Corria como quem corre o mundo inteiro,

Corria obstinado, mas corria sem destino,

Corria como quem corre ao banheiro em um chamado do intestino,

Corria como corríamos quando éramos meninos,

Corria enquanto lhe observava o garoto franzino,

Corria e sentia seu coração disparar,

Corria como se quisesse o próprio sistema cardíaco testar,

Corria como se quisesse o coração estourar,

Corria como se quisesse a morte encontrar,

Corria como se quisesse parar,

Corria sem largar a carroça,

Corria sozinho em direção a morte,

Corria como quem busca a sorte,

Corria para encontrar um pingo de verdade,

Corria de toda maldade e vaidade,

Corria por liberdade!

Espero que já esteja parado, inerte…

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Felipe Hudson

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