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Poesias Periféricas

"Vozes da Periferia"

Areia Branca

A escuridão cobre a areia branca,

Soterra o amor e as lembranças,

Contamina as marcas dos pés deixadas na areia,

Se espalha como um vírus correndo pelas veias,

O óleo avança por onde alcançam meus olhos,

Os animais padecem perante um novo desastre,

Se entregam calados após lutarem por suas vidas,

Encobertos na lama preta,

Calados como nossos governantes,

Abandonados pelas autoridades,

Políticos com diplomas acumulados em suas estantes,

Salas infestadas de vaidades,

Mas pouco amor no coração,

Viram as costas para tragédia,

Utilizam o momento como palco para acusação,

Não se preocupam em limpar os oceanos,

Estão acostumados a conviver com uma vida manchada,

Históricos de corrupção, acordos com milícias, cargos de fachada,

Atolam a natureza em dejetos,

Porque viver em meio ao lixo lhes parece certo,

Lhes ofende um único dia serem chamados de honestos,

Gostam de um país funesto,

Sem perspectiva de futuro,

Incerto,

Não suportam a clareza,

Não suportam que tenhamos uma vida branda,

Que possamos deitar em areia branca e sonhar,

Querem nos tomar tudo,

Florestas, praias, escola, estudo,

Querem nos tomar o mundo!

Querem nos manter no submundo!

Querem chamar aposentados de vagabundo!

Querem entregar a Amazônia,

Querem nos deixar com insônia,

Querem nos impedir de sonhar,

E nem em sonhos teremos esperança,

E nem em sonhos pisaremos na areia branca,

Nem em sonhos!

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Felipe Hudson

Setembro Amarelo!

As vezes penso em morrer,

Não que eu realmente queira,

É por total inaptidão para a vida,

Sigo perdido em devaneios,

Ruas sem saída,

Desterro,

Abro meus olhos e estou vivendo o “feitiço do tempo”,

Todos os dias são o “dia da marmota”,

As mesmas frases,

A mesma rota,

Consigo prever os diálogos, as brigas, os pouco sorrisos,

Sensação de que não tenho tudo que preciso,

Mas o sentimento não é preciso,

O mesmo caminhar,

O mesmo calo o sapato aperta,

O mesmo bolso da mochila aberta,

A cadeira tem o mesmo defeito,

As costas doem do mesmo jeito,

O remédio faz, mas não faz efeito,

Nas madrugadas o ar é rarefeito,

As noites rivalizam com dias imperfeitos,

O caminhar é pesado,

Os quilômetros passam arrastados,

Assim com o ponteiro das horas,

Os dias passam arrastados desde os tempos da escola,

Ao mesmo tempo não se tem tempo para nada,

É uma vida arrastada!

Porém não posso deixa-la por nada,

Não há possibilidades de cometer tal devaneio,

Cercear minha vida no meio?

Ou no que acredito ser o meio,

Talvez ainda não esteja nem no meio,

Não creio que o melhor seja abandonar,

Não podemos deixar a ansiedade nos tomar,

A morte é a única certeza da vida,

Por que valeria a pena adiantar?

Por que permitiria meus dias a morte roubar?

Prefiro esperar,

Caminhar por esses dias,

Caminhar sem lugar,

Esperar para ver o que virá,

Como observador, como carcará,

Parado, tranquilo, esperando a hora de atacar,

Ou simplesmente livre para voar,

Precisamos urgentemente nos desconectar,

Da tecnologia desapegar,

Beijar, abraçar!

Precisamos viver!

O “dia da marmota” esquecer,

Existem outros filmes para ver,

Existe a possibilidade de viver,

Para o dia em que eu morrer,

Morrer com pena de deixar a vida,

Morrer achando que a estada foi pequena,

Morrer com a certeza de que valeu a pena!

Tudo!

Inclusive os momentos em que minha alma foi pequena!

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Felipe Hudson

O velho e o retorno

Nossos caminhos se encontraram novamente,

Na encruzilhada estava aquele velho, como sempre presente,

Carcomido pelo tempo,

Um sobrevivente convicto,

Estruturas firmes, ainda que abaladas pelo tempo,

Lá estava aquele velho com seus fantasmas e encantamentos,

Suas histórias acumuladas por cada parte do corpo,

Não podia se sentir vazio,

Não conseguia viver só,

Lá estava aquele velho,

Soterrado, na espreita,

Buscando alguém que lhe tirasse o pó,

Lá estava,

Antiquado, mas sempre na moda,

Disposto a ajudar,

Disposto a ser “uma mão na roda”,

Como diziam em tempos passados,

Tempos onde o velho já havia participado,

Como observador ou simples coadjuvante,

O velho já foi amado,

O velho já teve amantes,

O velho viu as coisas deixarem de ser como antes,

O velho viu mudar todo o entorno,

Viu livros entrarem e saírem de suas estantes,

Viu chegadas, partidas e também viu retornos,

O velho viu pessoas perderem suas cores e seus contornos,

Viu fé, viu dúvida, viu dor e sabor, viu crise e rancor, viu fuga, frio e calor,

Viu vida e amor,

O velho viu gerações,

Ouviu bater diferentes corações em diferentes situações,

Soube de corações que pararam de bater,

O velho acompanha,

O velho já foi moço,

Já ostentou charme e foi formoso,

O velho é meu desafio,

O velho é meu retorno,

Me entender com o passado,

Escrever novos contornos,

Deixa-lo agradecido pela estadia,

Deixa-lo com um sorriso de intimidade,

Em um abraço apertado,

Abraço de amizade,

Guardar apenas boas lembranças do velho,

Esquecer os rancores,

As más águas das mágoas,

Guardar apenas os amores, sabores,

Me reencontrar com o velho em busca do novo,

Me reencontrar comigo,

Um verdadeiro retorno,

Porquê retornar é ouro quando valorizamos nossas origens.

 

 

Felipe Hudson

Carroceiro

Corria com sua carroça,

Corria como quem tem pressa,

Olhos saltados,

Suor escorrendo pela testa,

Corria como se estivesse atrasado para festa,

“ Corria como quem não presta! ”

(Ouviram-se sussurros pelas frestas)

Corria como quem se atrasou para vida,

Olhar obstinado,

Sem tempo para troça,

Corria e puxava a carroça,

Corria como quem fugia da roça,

Corria como o filho pródigo,

Na ida e na volta,

Corria como quem tem o código para revolta,

Corria como o senhor da comunicação,

Entre Orum e Aiyê,

Corria como quem tem um recado para trazer,

Corria até o esgotamento,

Corria como quem corre do sofrimento,

Corria como um fugitivo,

Corria como se pela vida fosse perseguido,

Corria o carroceiro,

Talvez corresse pela vida, talvez por dinheiro,

Corria como quem corre o mundo inteiro,

Corria obstinado, mas corria sem destino,

Corria como quem corre ao banheiro em um chamado do intestino,

Corria como corríamos quando éramos meninos,

Corria enquanto lhe observava o garoto franzino,

Corria e sentia seu coração disparar,

Corria como se quisesse o próprio sistema cardíaco testar,

Corria como se quisesse o coração estourar,

Corria como se quisesse a morte encontrar,

Corria como se quisesse parar,

Corria sem largar a carroça,

Corria sozinho em direção a morte,

Corria como quem busca a sorte,

Corria para encontrar um pingo de verdade,

Corria de toda maldade e vaidade,

Corria por liberdade!

Espero que já esteja parado, inerte…

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Felipe Hudson

Cosme e Damião

As mãos suavam a espera de uma bala ou balão,

Coração batia mais forte,

Final de setembro tinha Cosme e Damião,

Sacos de balas, doces, bolos, guaraná,

Tinha alegria, abraços, muitas casas para visitar,

De terreiro em terreiro até enjoar,

Brigadeiro, beijinho, arroz doce, guaraná,

Chuva de balas jogadas para o ar,

Era dia de Ibeji eram os filhos de Euá.

Não tinha criança na vila que não estivesse a esperar,

Pelas festas de setembro, pelo tal do guaraná,

Era dia de fartura, era dia de esbanjar,

Era festa de Ibeji,

Eram os filhos de Euá!

 

Os anos se passaram,

Eu nunca pude imaginar,

As coisas ficaram difíceis,

O doce começou a amargar,

Queimaram nossos terreiros,

Vandalizaram nossos orixás,

Demonizaram o meu brigadeiro,

Praguejaram contra Oxalá!

 

O sincretismo minguou,

Minguaram também o respeito e a tolerância,

Alegrias da infância viraram lenda,

Não nos ofertaram mais esperança,

Trocaram balas de goma por balas de borracha,

Não escuto mais risadas,

Crianças não querem pirulitos do zorro,

Querem coletes a prova de balas e gritam por socorro!

 

O que pensariam Cosme e Damião,

Se estivessem correndo pelo Aiye fugindo de munição?

Distribuindo sorrisos e travessuras e recebendo punição,

Sentiram o sangue gelar como acontece com qualquer irmão,

Fugiriam dos tiros de fuzil como qualquer cidadão,

E em dias que as balas cruzassem os ares deitariam no chão,

Pediriam a Xangô por justiça,

E a Olorum proteção!

 

Seriam estatísticas mal investigadas,

Corpos mortos na escuridão,

Mesmo esperando por gargalhadas descompassadas,

Veríamos reduzir a respiração,

O ar nos pulmões um sopro fraco,

O fraquejar do coração,

Batidas cada vez mais silenciosas,

Veias sem pulsação,

Não haverá doação de órgãos,

Cobertura da mídia não haverá,

Não haverá caruru ou cocada,

Tão pouco haverá vatapá,

Enquanto matarem nosso povo somente lagrima rolará,

E para que nosso pranto não seja em vão,

Salve Cosme e Damião!

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Felipe Hudson

Recado de Orixá

Na mesa caíram os búzios,

Era fala de orixá,

Vieram trazer um recado,

Disseram pra eu me cuidar.

 

A contenda é comigo mesmo,

Não posso ninguém mais culpar,

Falaram que minha língua é grande,

Pediram pra eu me cuidar.

O conselho foi claro, preciso,

Mandaram a língua eu guardar,

Se o assunto não for comigo,

Pediram pra eu me calar.

 

Na mesa caíram os búzios,

Era fala de orixá,

Vieram trazer um recado,

Disseram pra eu me cuidar.

 

Pediram para controlar os excessos,

Para me atentar ao comunicar,

Palavra solta não tem regresso,

Pediram pra eu me cuidar,

Em palavra de santo eu acredito,

Não tem porque não acreditar,

Já confiei em um mundo perdido,

Por que do santo iria duvidar?

 

Na mesa caíram os búzios,

Era fala de orixá,

Vieram trazer um recado,

Disseram pra eu me cuidar.

 

O santo foi claro e direto,

A conversa foi em yorubá,

Disse que não me faltaria um teto,

Mas pediu para eu me cuidar.

A mensagem chegou do Orum,

Trazida através de Ifá,

Orixá que nos mostra o destino,

Porta-voz de Orumilá,

Exu foi quem abriu o caminho,

Para as mensagens nos búzios chegar,

Iansã, Omulu e o Oxum para minha graça pintaram por lá.

 

Na mesa caíram os búzios,

Era fala de orixá,

Vieram trazer um recado,

Disseram pra eu me cuidar.

 

Se tenho quem me olha o destino,

Um bom santo para me avisar,

Pra trilhar o melhor dos caminhos,

Só basta o santo escutar,

A vida poderá ser mais fácil,

Nos desígnios de Oxalá,

Alimentando o caminho correto,

Não há com que se preocupar!

 

Na mesa caíram os búzios,

Era fala de orixá,

Vieram trazer um recado,

Disseram pra eu me cuidar.

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Felipe Hudson

Parque de Adversão

Em um país emergente,

Repleto de pessoas bem-intencionadas,

Houve tempos de glória seguidos de derrocadas,

Era como viver em uma montanha-russa,

Subidas arrastadas e quedas velozes,

Vez ou outra um looping,

Todos acreditavam que trocariam os papéis,

Mas não era verdade,

Era apenas um simples frio na barriga,

Depois retornavam as velhas medidas,

Subidas arrastadas na espera das temidas descidas,

Um círculo interminável de voltas na tal montanha-russa,

Por vezes alguém tentava pular do carrinho,

Alertar seu vizinho,

Mas nada fazia efeito,

Rolava mais um looping,

Uma passagem em um túnel estreito,

E lá estavam todos na mesma posição,

Os primeiros e privilegiados e os últimos do vagão,

Privilegiados por não terem cabeças a sua frente,

Mas vendo a mesma cena continuamente,

Subidas, descidas, looping,

Alguém despenca do carrinho,

Outros eram jogados para fora,

Ninguém sabe onde caiam,

Sabiam apenas que foram embora,

E agora?

Mais um looping,

Te conto outra hora!

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Felipe Hudson

P@Z!

A paz em sorrisos,

A paz é um sorriso,

Talvez Madre Tereza tenha dito,

Não me lembro ao certo,

Não tenho uma memória vívida,

Mas se falou estava certa,

Um sorriso ao acordar,

Um sorriso ao almoçar,

Um sorriso no jantar,

Um sorriso para deitar,

Um sorriso podia o médico nos receitar,

Sem contraindicações,

Sem contradições,

Um sorriso leve,

Ou carregado de emoção,

Um sorriso de Irmão,

Um sorriso sem culpa,

Um sorriso não se acerta,

Um sorriso não se erra,

Um sorriso sem luta,

Um sorriso traz a paz,

E a paz é bem melhor que a guerra,

Acreditem!

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Felipe Hudson

Dias Gelados

A página em branco não assusta,

Assusta a mente seca,

Limitada em pensamentos rotineiros,

Devaneios arruaceiros que atuam como uma bússola quebrada,

Não ajudam,

No pior dos casos atrapalham,

Perdidos em meio a falta de oportunidades,

As ideias atrasadas que nos chegam esgotadas,

Como todas chances herdadas pela quebrada,

Sobra, doação, inutilidades,

Chamadas de oportunidades,

Por quem não as quis e despejou os dejetos na comunidade,

Raridade,

Quando um escapa do destino é a novidade,

Símbolo da tal meritocracia que encobre a mediocridade,

A maldade espalhada pela classe dominante,

Que não se preocupa com os pobres nesse instante,

E talvez se comova em dias gelados,

Seja pelas mortes provocadas,

Ou pelos canos em sua nuca encostados,

Jacos e carros tomados,

Filhos assassinados,

E somente na tristeza encontra-se empatia,

Por vezes nem as tragédias iluminam almas frias,

E mesmo nas periferias tem quem acredita em meritocracia,

Preferem caminhar com cabrestos,

Vivendo de ironia,

Enriquecendo os mais ricos,

Esmagados!

Pobres em sua rotina,

Fracos,

Caminhando nus em dias gelados!

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Felipe Hudson

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